sexta-feira, 29 de março de 2013

A Ordem Moral






"É sempre possível que algo terrível me aconteça. Se acontecer, eu sofrerei. Mas não culparei ninguém. Sofrerei sem revolta, sabendo que Deus é inocente"
Rubens Alves


Por Eduardo Medeiros



NINGUÉM QUER SOFRER. O grande drama existencial é: "por que alguns sofrem e outros não"? Nunca achamos que nosso sofrimento faz sentido, afinal de contas, somos pessoas boas! Se fosse aquele patife mau caráter que estivesse sofrendo isso sim teria sentido! Mas eu e você não merecemos sofrer. Somos pessoas boas, equilibradas, justas, fazemos o bem e vamos à igreja todos os domingos. Trazemos dentro de nós um senso de justiça que estabelece que os maus devem sofrer - afinal de contas estão recebendo o que é justo - e os justos, deveriam ser recompensados por seres justos. Mas parece que são os bons e justos os que mais sofrem...

Kant dizia-se deslumbrado pelo "sentimento moral no coração do homem". Aquela consciência de que há atos bons e atos maus. Essa distinção é necessária para a ordem social humana. Os criminosos devem ser castigados, os bons recompensados. Mas se por um lado temos essa consciência moral, o que podemos dizer do universo?

Se o universo for uma ordem moral, os bons são recompensados e os maus punidos. Se assim é, temos que concluir que se alguém sofre, seu sofrimento é merecido. Lembram dos "amigos" de Jó? O sofrimento é castigo por algum ato mau praticado. Os discípulos de Jesus pensavam assim ao perguntar sobre um cego mendigando; queriam saber quem tinha pecado, ele ou seus pais, já que a cegueira, seria um castigo de Deus. Jesus foi bem claro: Nem o cego nem seus pais tinham pecado!

A verdade cruel: coisas ruins acontecem com pessoas boas e coisas boas acontecem com gente ruim! Isso nos parece um absurdo completo. Mas é exatamente isso que nos prova que o universo não é um ordem moral. Se fosse, seria um bom negócio ser bom...o brado "eu não merecia" ecoa! Quem brada, está dizendo que não era merecedor de tal sofrimento.

Mas esse pensamento só faz sentido se nós acreditarmos que os sofrimentos e os prazeres são enviados por Alguém Todo-Poderoso, que toma conta do universo. Muitos cristãos pensam assim, e logo, acham que as pessoas sofrem porque Deus quer ou por que estão pagando por algum pecado. A criança com câncer, o adolescente que morre atropelado, o velhinho doente que  morre abandonado; os terremotos, furacões, tudo isso viria de Deus, e se ele quisesse, poderia ter evitado.

Como alguém pode crer e adorar um Deus assim?


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baseado num artigo que li da autoria

do Rubens Alves

sexta-feira, 15 de março de 2013

Cristianismo antes do cristianismo



Por Donizete.

Para quem já teve contato com as construções teológicas que fez Leonardo Boff, a partir do Cristo libertador, esta afirmação contida no tema, não soa de maneira antitética.

De acordo com o pensador católico, a estrutura crística pré-existia dentro da história da humanidade, e é anterior ao Jesus histórico de Nazaré. Disse ele:

“Todas as vezes que o homem se abre para Deus e para o outro, sempre que realiza verdadeiro amor e superação do egoísmo, quando o homem busca justiça, solidariedade, reconciliação e perdão, aí se dá verdadeiro cristianismo e emerge dentro da história humana a estrutura crística. Assim pois, o cristianismo pode existir antes do cristianismo; e mais, cristianismo pode se verificar também fora dos limites cristãos”.

Agostinho tinha uma cosmovisão semelhante quando afirmou:

“A substância daquilo que hoje chamamos de cristianismo, existia já nos antigos, e estava presente desde os primórdios da humanidade. Finalmente quando Cristo apareceu em carne, começou-se a chamar àquilo que sempre existia de religião cristã”.

Com essa concepção, podemos por inferência concluir que o cristianismo se realiza não somente onde ele é professado explicitamente e vivido ortodoxamente. Mas surge sempre e onde o homem diz sim ao bem, à verdade e ao amor.

Antes de Cristo o cristianismo era anônimo e latente. Não possuía ainda um nome, embora existisse e fosse vivido pelos homens. Com Jesus o cristianismo ganhou um nome. Jesus o viveu com tal profundidade e absolutidade que por antonomásia passou a chamar-se Cristo. Por que não se chamava de cristianismo, não significa que era inexistente. Existia, mas na forma abscôndita, anônima e latente. Com Jesus chegou a sua máxima patência, explicitação e revelação.

Daí podermos asseverar que o cristianismo é tão vasto como o mundo humano. Ele pode se realizar ontem, antes de Cristo, e pode se realizar ainda hoje fora dos limites “cristãos”, lá onde a palavra cristianismo não é empregada e conhecida. Mais ainda: cristianismo pode se encontrar lá, onde ele é, por uma consciência errônea, combatido e perseguido. Por isso cristianismo não é simplesmente uma cosmovisão mais perfeita. Nem uma religião mais sublime, muito menos uma ideologia.

Com toda razão dizia o primeiro filósofo cristão Justino: “Todos os que vivem conforme o Logos são cristãos. Assim entre os gregos Sócrates, Heráclito e outros; e entre os não gregos Abraão, Ananias, Azarias, Elias e muitos outros cuja citação dos nomes e obras nos levaria longe demais”

 Não é por acaso que Joseph Ratzinger em consonância com esse pensamento exprimia com felicidade: “Não é verdadeiro cristão o membro confessional do partido, mas aquele que se tornou realmente humano pela vivência cristã. Não aquele que observa de maneira servil um sistema de normas e leis, apenas com vistas para si mesmo, mas aquele que se tornou livre para a simples bondade humana”.

Seguindo ainda nesta mesma linha de pensamento, ser cristão, segundo Boff, é viver a vida humana naquela profundidade e radicalidade onde ela se abre e comunga o mistério de Deus.  Cristianismo é a vivência concreta e conseqüente na estrutura crística, daquilo que Jesus de Nazaré viveu com total abertura ao outro e ao grande outro, amor indiscriminado, fidelidade inabalável à voz da consciência e superação daquilo que amarra o homem ao seu próprio egoísmo. De modo que não é o que é cristão que é bom, verdadeiro e justo. Mas o bom, verdadeiro e justo é que é cristão...

Com a visão cristológica "diferente" que possuímos, confessamos um cristianismo moderno centrado apenas na ortodoxia, em detrimento, com raras exceções da ortopraxia. Vivemos um apego demasiado ao ritualismo e ao espiritualismo, e marginalizamos àquilo que é essência do evangelho: A empatia, o altruísmo, o compartilhamento, a sensibilidade às necessidades do outro. Ou seja, as coisas que fundamentalmente condizem com a proposta inicial do Jesus histórico. Como se o mundo em que vivemos hoje, a opressão, a pobreza e a desvalides já tivessem sido erradicadas à tempos. E com o agravante de desqualificarmos as intenções e ações de pessoas com propostas inclusivas e de libertação, simplesmente por não estarem ligadas ao nosso arcabouço de fé.

Não tenho a pretensão de fazer apologia à cristologia de Boff. Visto ter ela aceitação minoritária entre os cristãos. Não entro nesse mérito! Mas sim para levar-nos a refletir sobre duas verdades:

Primeira é em relação a nossa indiferença pela práxis cristã. As vezes ela é tão crônica, que quando um grupo ou uma pessoa que não tem a comunhão de idéias do cristianismo, apresenta propostas de auxílio ao outro, suas intenções e motivações são postas em cheque.

Segunda é que Jesus veio derrubar as barreiras sectárias que dividem os homens e que fazem ver irmãos somente naqueles que aderem ao seu credo. Quando na verdade todos aqueles que aderem à causa de Jesus estão irmanados com Ele e Ele está agindo neles para que haja um mundo melhor. 

Partindo desse pressuposto que Paulo Freire  dizia que Marx era um cristão inconsciente.

Abraços.



Bibliografia:
Jesus Cristo Libertador, Boff, Leonardo

sexta-feira, 8 de março de 2013

LER E ESCREVER HOJE


por Matheus De Cesaro

“Deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela”

Arthur Schopenhauer – A Arte de Escrever





Na pegada do Nobre Amigo Altamirando e sua idéia de “Suícidio Intelectual”, eu vou trazer aos Nobres Amigos Confrades, um texto já antigo, pois o tempo não me permite destilar o veneno que tenho absorvido nos últimos dias rsrsrsrs... Talvez o texto não gere debate, discussões, mas se este nos fizer refletir sobre o que esta acontecendo em nossas academias, ele alcançou seu objetivo.

Lembro-me que quando tinha eu, uns 8 ou 9 anos, em um dia de natal, ter pego em mãos um caderno e um lápis, ter olhado para o meu falecido pai e ter dito, “vou escrever um livro”. Parece algo insignificante, se nos basearmos na idéia de que nunca tenha escrito um livro. Mas ali, naquele mesmo instante, se acendeu em mim, o gosto pela leitura e pela escrita, hábito que carrego comigo desde a infância até os dias de hoje. Mas, se tem uma obra, um artigo, algo que tenha me influenciado muito nesta belíssima relação com as letras, é a “Arte de Escrever” de Arthur Schopenhauer, onde ele expõe de forma crítica e muito contundente suas opiniões e pensamentos sobre o ato da escrita. Chamando a atenção para questões que na época, e também hoje são muito atuais e pertinentes. Ele sem papas na língua, o que lhe era comum, se opõe a literatura de consumo, e busca estabelecer uma distinção entre aqueles que em suas idéias seriam bons autores, e os que na verdade buscavam apenas cifras e o status que na época recebiam os escritores. Desta forma, ele não escapa de recriminar grande parte dos jornalistas do seu tempo, condena o hábito do abandono dos clássicos para se deter ao novo, as novas literaturas que surgiam aos montes, e acaba por concluir por meio de algumas considerações que nascia naquele período, o que ele denominou de “degradação da língua por meio de uma literatura decadente”.
Trazendo esta idéia para nossa realidade, e contextualizando com o nosso cotidiano, eu percebi uma semelhança muito grande em relação à forma como tratamos e conduzimos o que lemos e escrevemos.
Em meio à facilidade no acesso de informações que hoje possuímos, percebe-se na era atual uma desenfreada guerra pelo “pseudo saber”, pois de fato se busca conhecimento em excesso, sem a compreensão necessária do adquirido, no objetivo nefasto e decadente, de construir uma pseudo sabedoria, e então, por meio da aparência desenvolver uma suposta intelectualidade, que ao primeiro olhar nos permite ficar admirados, abismados, e até cheios de orgulho por estar diante de uma “mente brilhante”,  mas que, com o passar do tempo nos revela sua fraqueza e superficialidade. Desta forma surge uma gigante onda de literaturas enfadonhas, que apenas repetem informações que já são ecoadas de diversas formas, pelos mais variados autores. Mais do mesmo, com uma nova roupagem, para que então se esteja adequado para a venda. Não se tem foco na “instrução”, não se estimula o pensar, não se valoriza a mente humana, apenas vãs repetições. Como afirmou Schopenhauer,

“Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma, no entanto é essa maneira de pensar que caracteriza uma cabeça filosófica.”

Partindo destas premissas extraídas da obra de Schopenhauer, fico a pensar e repensar a grande diferença entre estar informado e instruído para determinadas situações na vida. E não vejo nenhuma forma de não lembrar ou mencionar as academias, que a cada ano que passa forma milhares de pessoas nos mais variados ramos e segmentos, providos de muita informação, porém desprovidos de instrução. É claro que de forma alguma posso considerar as academias de ensino irrelevantes ou desnecessárias, isso faria de mim, um completo tolo, elas tem sim um papel importante na nossa formação, mas estar instruído depende muito mais de nós mesmos do que das academias. Certa feita li uma frase de Carlos Drummond de Andrade em um texto publicado em um artigo de uma revista, que me chamou muito a atenção, ela dizia:


"As academias coroam com igual zelo o talento e a ausência dele."

Desta forma, é fácil compreender o que estou a dizer em relação as academias de ensino.  São necessárias e essenciais, porém não são a garantia de que estejamos instruídos para compreender todas as informações que recebemos nos 4, 5 ou mais anos que estivemos nelas, isso depende única e exclusivamente de nós, do nosso talento, da nossa percepção.

Sempre me dediquei a leitura, e incentivei aos amigos e conhecidos que desenvolvessem este hábito. Mas hoje, faço diferente. Esforço-me para fazer com que todos compreendam que necessário é pensar sobre o que se lê, analisar o que se lê, exercitar a mente por meio das informações para que então, nossa mente esteja instruída. Muitas vezes não é o muito ler, e sim o pouco de forma pensada e analisada que fará a diferença, que nos levará a “instrução”. Como disse Nietzsche em Ecce Homo, Aforismo 8 de “Porque sou tão Inteligente?”.

“O erudito que no fundo “folheia” apena ainda livros, acaba por perder inteiramente a capacidade de pensar por si. Se não folheia, também não pensa. Responde a um estímulo (um pensamento lido), quando pensa em última análise, ainda simplesmente reage. O erudito despende toda a sua força em dizer sim e não, na critica do que já foi pensado, pessoalmente já não pensa... O erudito “um décadent”...  Eis o que vi com os meus olhos: Naturezas dotadas de ricas e livres tendências, já aos trinta anos se tinham tornado uma desgraça pela leitura, simples fósforos que, para produzirem faíscas (idéias) carecem de fricção.”

Entendo que, o melhor caminho hoje para à instrução, é a percepção de tudo que vamos acumulando em relação à informação. Um entendimento mais amplo do que existencialmente permeia e norteia nossas vidas. É como adquirir à capacidade de ler o dia-a-dia, a vida, as pessoas, a natureza, é como perceber que para aprender e estar instruído é necessário um pouco mais do que livros. Lin Yutang, um grande escritor chinês do inicio do século XX, em sua obra “A Importância de Viver”, se refere a essa questão usando a expressão “O Paradoxo da Leitura”. Ele diz,

“O sábio lê livros, mas lê também a vida. O universo é um grande livro e a vida é uma grande escola. Quanto mais leio mais ignorante fico. A escolha que hoje se depara a qualquer homem educado é entre a inocência que não lê e a ignorância que lê muito. É possível sustentar alguma aparência de exatidão que a imprensa de hoje mata a leitura e a leitura mata o pensamento”

Agora, fico a imaginar...

Se Schopenhauer já no século XIX, e Lin no século XX sem a facilidade que hoje temos no acesso as informações e com todas as dificuldades que se tinham para ter em mãos obras significativas do período já detectavam essa onda de decadência na arte da escrita e da leitura de forma tão concreta, o que diriam hoje em relação aos pensadores e escritores do nosso tempo, que tendo a disposição o Google, Wikpédia, e tantas outras formas de rapidamente acumular informações não conseguem deixar de serem apenas medíocres escritores a repetir o passado?

Posso estar parecendo um tanto quanto crítico... E se realmente essa for à aparência, tenho por certo que alcancei meu objetivo. Precisamos orientar a nossa geração, e as novas gerações a estimularem o pensamento, a buscarem extrair, ruminar, fazer sair água da pedra. Precisamos fazer renascer a “Arte de Escrever”. E para isso, talvez seja necessário aprender a ler, de forma ordenada, pois o contrário disso não alimenta, apenas entorpece-nos, nos tornando incapazes de refletir, e, por conseguinte, de produzir. Não que esteja sendo radical, mas a leitura quando desordenada nos escraviza às imagens mentais, ao fluxo e refluxo das idéias que nos limitamos a contemplar na simples condição de espectadores, uma espécie de embriaguez que imobiliza e desafina nossa inteligência. Talvez A. D. Sertilinges em “A Vida Intelectual” tenha sintetizado isso de forma muito clara quando afirma,

“Não esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros; esse encontra-se, espiritualmente, em estado de cefalalgia, ao passo que o
trabalhador, senhor de si, lê com calma e suavidade somente o que quer reter, só retém o que deve servir, organiza o cérebro e não o maltrata com indigestões absurdas."

Desta forma compreendo que o que de fato importa, não é a quantidade, o número de informações que se acumule, mas primeiramente a qualidade e a forma como se digeri tudo isso. Pois não é o material que nos falta ao pensamento, e sim os pensamentos, em relação a quantidade de materiais que absorvemos todos os dias. O máximo que podemos ter mantendo um hábito de leitura desordenada, seria uma forte e desagradável indigestão de informações e conhecimentos.

Foi desta forma, ruminado durante tempos, analisando e tendo cuidado de não manipular os escritos que pude compreender a mensagem de Schopenhauer, que radicalmente disse,

“Escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe outras obras como elas são”

Mas em suma, para finalizar este artigo, quero enfatizar, deixar claro ao leitor que, o que o  objetivo em montar essa crítica, é reavivar em todos o desejo pela leitura, o pensar e a escrita, incendiar o espírito poeta que muitas vezes adormece entre a confusão de nossos sentimentos e o excesso de informações. Pois não há quem nos faça a vida ser mais leve, quem nos leve a perceber a realidade dos sentimentos mais comuns da vida, do que  um poeta entregue ao seu ofício, o de inspirar e fazer inspirar, o de pensar e fazer pensar, não devemos ser escravos da letra, e sim fazer com que elas associadas ao nossos pensamentos produzam vida ao serem lidas, gerando benefícios e crescimento.

"Os poetas têm de ser pessoas médias, 
nem deuses, nem vendedores de livros."

Horácio

sexta-feira, 1 de março de 2013

OS LIVROS DEUTEROCANÔNICOS:






Por João Cirilo

Bem sabidos os critérios dos judeus em Jâmnia no ano 100 de nossa era para fixar as bases de seus escritos, obviamente acossados pelo cristianismo que despontava: a) a língua utilizada deveria ser a hebraica com exclusividade; b) não poderiam ser escritos fora de Israel; c) não após Esdras (458-428 a.C).

Minha preocupação aqui é especular perfunctoriamente se a doutrina de Cristo ficará imperfeita com os deuterocanônicos (ou apócrifos para os evangélicos). Que são: Judite, Tobias, partes do Livro de Ester, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1Macabeus, 2Macabeus, os capítulos 13 e 14, e os versos 24 a 90 do capítulo 3 de Daniel.

Ora, Judite, Tobias e Ester pertencem ao gênero midráxico. “O midraxe se caracteriza precisamente por uma mensagem ao serviço da qual é história e a geografia fornecem apenas um quadro aproximativo, sem nenhuma preocupação de exatidão rigorosa” (Introdução a Tobias, Judite e Ester – Bíblia Edições Loyola, 1983, pág. 567).

Portanto, literatura onde se busca primacialmente os bons exemplos, a mensagem nelas contidas, e não uma história rigorosamente real, com personagens concretos.

Tobias, escrito por volta do ano 100 “com razão se tem louvado ‘o encanto desse livro que eleva os corações na alegria do bem fazer sob o olhar de Deus’ (A. Lefèvre)’” (obra e página citados). De resto, é um livro que trata da fidelidade e dos amores fraternal e filial.

Judite, escrito por volta de 190 a.C “se situa no estilo dramático, colocando em confronto o que havia de mais forte no mundo e o que há de mais fraco, para ilustrar a verdade que Deus escolhe o que é fraco para confundir o que é forte (1Cor 1,27” (idem).

Ester, por volta de 150, “literariamente falando, é uma das mas belas narrativas da Bíblia, mas sua mensagem se reduz a ilustrar a doutrina sapiencial de situações que se invertem, e poderia se resumida nos seguintes princípios sapienciais: “cada um é castigado por onde peca”, “orgulho precede ruína, humildade precede a glória (Sab. 11, 16, Ecle, 10,8)” (idem).

Sabedoria foi escrito entre 90 e 50 a.C, em Alexandria. Entre outros assuntos transcendentais, o capítulo 4 trata da morte prematura do justo, o que é feito pela primeira vez no Antigo Testamento. Difícil que uma mensagem desta não nos soe muito cristã e moderna, ao tempo que muito nos esclarece:

“O justo, embora morra cedo, acha repouso. A velhice venerável não é a que é dada por longos dias, nem se mede pelo número dos anos: inteligência vale por cabelos brancos, vida sem mancha vale vida longeva. Agradou a Deus Este o amou; como vivia entre pecadores foi transferido. Foi retirado para que a malícia não alterasse sua inteligência, nem a fraude seduzisse sua alma. Pois o fascino do mal obscurece o bem, o turbilhão da paixão arruína um espírito sem malícia. Chegando em breve tempo à perfeição, ele completou uma longa carreira; sua alma era agradável ao Senhor, que se apressou em tirá-lo dentre os maus” (Sab 4, 7-14)

Eclesiástico (ou Sirácides), livro estritamente sapiencial, à luz por volta de 180 e traduzido para o grego por volta de 130. Segundo a Bíblia Loyola “o Sirácides foi um professor de sabedoria de Jerusalém. Homem abastado, de grande cultura, muito viajado, ele consagrou a vida ao serviço de Deus, meditando sua lei e perscrutando o gênero sapiencial do qual ele nos deixou, por volta de 180 a.C, a maior enciclopédia do gênero” (idem, pag. 1016).

Para uma pequena ideia do conteúdo do livro basta-nos a leitura do primeiro verso do primeiro capítulo: “Toda sabedoria vem do Senhor e está sempre com Ele”.

Ao longo de 51 capítulos dá conselhos sobre a retidão, humildade, constância nas provações, a honra aos pais, as amizades falsas e verdadeiras, o relacionamento entre pais e filhos, os bons e os maus governos, enfim, um tesouro de boas maneiras e sábios conselhos que não só podem e devem ser lidos por qualquer cristão como suas disposições não discrepam uma vírgula sobre a Palavra do Mestre. E nem da Lei e dos Profetas.

Baruc é livro profético, mas para os judeus tem o defeito incorrigível de ter sido escrito fora da Palestina. De fato, assim começa o relato: “Estas são as palavras do livro escrito em Babilônia por Baruc, filho de Neerias, filho de Maasias ...” (1, 1). Consta ainda que era discípulo e amanuense de Jeremias, que teria escrito um dos capítulos de seu Livro. No entanto está fora do cânone porque escrito fora da Palestina!

Os dois livros de Macabeus são históricos (por volta de 160) e é estranho que pelo menos o primeiro esteja fora do cânone judeu, pois tem original hebraico (embora perdido), salvando-se apenas a tradução grega; mais estranho ainda porque consta inclusive no Talmud a “Festa das Luzes”, que é comemorada anualmente em Israel e tem origem neles.

O segundo Livro pode ser mais emblemático porque escrito em grego fora da palestina, tal qual a tradução do primeiro. Além disso, traz a famosa “oração aos mortos”, relatada no capítulo 12, versos 44-46.

“Pois, se não esperasse que os soldados caídos ressuscitassem, teria sido supérfluo e insensato orar pelos mortos. Considerando, porém, que belíssima recompensa está reservada aos que morrem piedosamente, seu pensamento foi santo e piedoso. Eis porque mandou oferece aquele sacrifício pelos mortos, para que ficassem livres do pecado”

Isso soa estranho aos evangélicos que repugnam a oração aos mortos e o purgatório; todavia, não conseguem cosê-lo com, por exemplo, Mateus, 22: 31-32 e Lucas 9, 59-60. E evidentemente, menos ainda com a doutrina do Corpo Místico de Cristo, que embora seja algo explícito tanto na 1Cor como no capítulo 15 de São João, não entendem e não é à toa que tropecem tanto nessas questões mais transcendentes.

Mesma época começa a circular o apocalíptico livro de Daniel na versão grega, que é parcialmente tido como apócrifo, pois a eiva é lançada contra os capítulos 13 e 14 e os versos 24 a 90 do capítulo 3.

O capítulo 13 trata do julgamento de Susana. Nada demais, porque diz que dois velhos queriam-na possuir e não se conformaram com o repelão combinaram de acusá-la de que ambos a haviam possuído. Condenada à morte teve em Daniel seu defensor, que interrogou os acusadores com tal arte e cuidado que logo desmascarou a farsa: o veneno virou-se contra eles que foram executados segundo a lei mosaica.

O capítulo 14 deveria ser caro aos evangélicos porque trata justamente da idolatria, assunto que lhes desperta um prazer inenarrável em falar e discutir, embora sem noção alguma do que estão falando e discutindo: Daniel prova a Ciro, rei da Pérsia, que Bel não passava de um ídolo que ele, Daniel, não adorava, porque são “produtos humanos”, mas sim era devotado ao “Deus vivo, Criador do céu e da terra, Senhor de tudo o que vive”.

Os versos 24 a 90 do capítulo 3 tratam da perícope de Sidrac, Misac e Abdênago, atirados na fornalha quentíssima por não adorarem a estátua de ouro de Nabucodonosor, retratam os cânticos de louvação dos mártires na fornalha ardente, que não lhes produziu nenhum dano. Retirados sãos e salvos, tocaram com este milagroso exemplo o coração do rei e este ordenou que todo homem que proferisse algo contra o Deus daqueles jovens seria esquartejado e sua casa destruída “porque não há outro Deus que possa salvar como Ele”.

Esta passagem tem ainda o reforço de ser citada “a lattere” no capítulo 11, 34, da Carta aos Hebreus.

Pelo menos de minha parte, penso que a doutrina evangélica que se filiou à corrente judia para expungir os chamados deuterocanônicos (que eles chamam “apócrifos”) da Bíblia, não tem razão de ser. Se já era esquisito aos judeus o viés para os cortes, embora se entenda seu zelo até indiscreto de filhos exclusivos da promessa, não há qualquer fundamento para que os cristãos evangélicos sigam a mesma traça proposta por Lutero – que eu saiba sem nenhuma explicação plausível, exceto para marcar território contra a Igreja – e também cortem tais passagens de suas respectivas Bíblias.

Pois só encontraremos, em toda a literatura excluída somente as passagens de 2Macabeus e Sabedoria a trazer alguma perplexidade: mas não para nós os cristãos, que justamente ansiamos pela vida eterna, conforme Jesus nos prometeu.

Então, penso que se trata apenas de uma exclusão política, uma afronta sem qualquer fundamento teológico, mas puramente emulativo, atitude própria dos homens, mas não com o beneplácito divino.