sábado, 26 de janeiro de 2013

A (má) aposta de Acab





Eduardo Medeiros


Quero fazer uma reflexão sobre um evento particular que se insere dentro do movimento profético de Israel. A ideia bíblica é a de que  Deus dirige a história como um soberano absoluto. Para alcançar sucesso no seu dirigismo celestial,  Deus pode até lançar mão de estratégias refinadas de enganação que ficariam até “bem” num soberano humano mas que cria sérios problemas teológicos quando este soberano é Deus. O movimento profético em Israel com quase toda certeza, se inspira nos movimentos proféticos das religiões cananeias. Há narrativas de profecias estáticas(1) cuja fórmula muito se assemelham àquelas encontradas nos profetas bíblicos. Como exemplo, vou destacar apenas uma: “A Estela de Zakir” conforme nos informe Luís Sicre(2):


Refere-se a eventos ocorridos por volta do ano 805 aC. O rei Zakir, ameaçado por uma coalização de outros sete reis...invoca o seu deus Baal-Samaim. Por meio de videntes e adivinhos obtém um oráculo favorável”. Diz o texto: “..Baal-Samaim me ouviu. Falou-me através de videntes e adivinhos e me disse: ‘ não temas. Eu te fiz rei e estarei junto a ti para libertar-te de todos estes reis que te cercam”


Esse oráculo em muito se assemelha tanto na forma quanto ao conteúdo a oráculos registrados pelos profetas de Israel. Há no texto de Zakir a eleição (“eu te fiz rei”) e a proteção (“estarei junto a ti”); o deus Baal-Samaim fala na primeira pessoa da mesma forma que nos oráculos bíblicos como por exemplo em Isaías 41.10: “Não temas, que eu estou contigo; não te angusties, que eu sou o teu Deus”. Gustav Holscher(3) é taxativo: “Israel adotou a profecia extática dos cananeus; esta provavelmente tem sua origem na Ásia Menor”.


Mas a análise mais equilibrada a se fazer sobre o assunto é que tanto Israel recebeu influência cananeia como também apresenta certa originalidade no conteúdo dos seus oráculos, principalmente como se apresenta no livro de Amós.

Vamos ao caso: Primeiro livro dos Reis, capítulo 22(paralelo em 1 Crônicas 18).


 Há três anos que Israel estava em paz com a Assíria. Por essa época, o rei de Juda – Josafá fez uma visita de cortesia ao rei Acab de Israel. Conversa vai, conversa vem, Acab comenta que a região de Ramot de Galaad sob domínio assírio, lhes pertenciam, mas que os dois reis nada faziam sobre isso. Acab então faz a proposta de irem à guerra, no qual é prontamente atendido. Mas Josafá pede que Acab consulte antes o oráculo do Senhor para saber se a guerra seria vencida. Acab então, reúne seus profetas (uns 400) e pergunta a eles se deveriam ir à guerra. A resposta dos profetas: “vai, o Senhor a entrega ao rei”. Não satisfeito com a resposta de 400 profetas, Josafá pergunta se não tinha mais nenhum profeta fora aqueles. Acab então diz que tinha mas que o sujeito era muito chato pois só profetizava desgraças para ele. Seu nome: Miquéias. Mas Josafá convence acab de mandar chama-lo. Quando Miquéias chega à presença dos reis é feita a pergunta: “podemos atacar Ramot de Galaad, ou desistimos?”.

Curiosamente, Miquéias responde que sim, que eles deveriam ir à guerra pois o Senhor os fariam vitoriosos. Acab desconfia. Deve ter pensado “esse profeta só me prediz desgraças e agora diz que vou ganhar a guerra”? Acab então repreende Miquéias e diz que ele deve dizer a verdade em nome do Senhor. Então Miqueias diz a “verdade”:


“Vi o Senhor sentado em seu trono. Todo o exército celeste estava em pé junto dele, à direita e à esquerda...” Aqui, Deus é visto (pelo escritor do relato) no estilo de um soberano, com sua corte de ministros, à semelhança das religiões antigas e das cortes de Israel e Juda´. Continua o relato e o Senhor perguntou: ‘Quem poderá enganar Acab para que vá e morra em Ramot de Gaalad? Uns propunham uma coisa e outros outra”... Quer dizer, Deus queria matar Acab e não sabia bem como fazer isso e pede o conselho dos ministros-espíritos. Continua o relato: “Então adiantou-se um espírito e, de pé diante do Senhor, disse: Eu o enganarei. O Senhor lhe perguntou: como? Respondeu: Irei e me transformarei em oráculo falso na boca de todos os profetas. O Senhor lhe disse: Conseguirás enganá-lo. Vai e faze-o”.


Intrigante cena esta, não? O autor do relato quer tentar explicar os complexos planos de Deus e seus modos de realiza-los. Mas eis a questão: Qual profeta é falso e qual profeta é verdadeiro nesse caso se ambos foram inspirados pelo mesmo Deus? Miquéias bem que tenta alertar Acab sobre os planos de Deus de mata-lo. A culpa pela falsidade do oráculo dos profetas de Acab era do próprio Deus, assim como o relato “verídico” do oráculo de Miquéias também. Mas o próprio ato de Miquéias revelar o verdadeiro intento de Deus é que fará o rei cair na armadilha divina...


 Resultado: Acab como já esperava, vê Miquéias lhe dizer um oráculo de desgraças e não confia nele (quando na verdade deveria confiar, mas Deus quer matá-lo e o espírito enganador da corte de Javé  fez o serviço direitinho), vai para a guerra e morre.

Essa narrativa, ficcional e teológica, quer fazer uma dialética com a história. Diante da crença que Deus é quem conduz a história, como explicar a morte de Acab senão por vontade divina? E não tem problemas de Deus manipular a veracidade das profecias para induzir e enganar Acab para que ele faça o que Deus quer. Para o leitor da época, estava tudo explicado e entendido.  




________________________________
(1) Estática - relativa ao êxtase; profetas que 
entravam em êxtase para profetizar.

(2)Sicre, José Luiz. Profetismo em Israel pp
226-228

(3) idem.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Culpa: A maior de todas as potestades!



Por José Lima

Acredito que Jesus tinha muitas dimensões tanto Téo-lógica quanto psico-lógica ao usar o termo “Satanás”, no texto bíblico, Ele usou a palavra“satanás” naquele contexto de Lucas, na minha interpretação, como a “culpa recalcada”, que foi à causadora do mal naquela mulher. A culpa entrou em sua psique e a “encurvou”! O que a medicina moderna chama de doenças psico-somáticas.

Alguém duvida que a culpa possa encurvar uma pessoa?... Ainda mais uma mulher na tradição judaica que já nascia culpada do “pecado de Eva”!

Jesus usou nomes como “castas", “demônios”, "satanás” em concordância com a crença da época, satanás era o agente, uma “pessoa com personalidade”, em antítese ao pai, na qual Jesus orava usando um pronome pessoal.

Não tenho dúvidas de que esses termos eram usados para falar do maior de todos os “diabos”, a “Culpa”, essa é a irmã gêmea de Satanás que foi gerada pela busca desenfreada da perfeição para "Agradar uma divindade", seja qual for à religião!

Uma mulher estava na sinagoga, contextualizando com os nossos dias, podemos dizer que era um dos lugares que esta relacionado com a religião (igreja). A religião muitas vezes aumenta a sensibilidade da consciência através da Regras, sobrecarregam o superego (consciência?) e essa sobrecarga aumenta o desejo de transgressão e quando a pessoa transgride, não consegue viver no nível exigido, é dominada por um estado de culpa tão alucinado que vai parar em centros de internações psiquiátricas.

Quem duvida disso é só ir aos hospitais psiquiátricos e verão que a maioria dos pacientes são evangélicos, e quanto mais radical é a igreja mais doentes mentais ela produz.

Jesus já tinha mapeado o DNA da maior de todas as potestades da religião:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mateus 23.15)

Um filho do inferno tem poder de fazer seu discípulo duas vezes pior do que ele, justamente aqueles que têm “Doutrinas certas” e querem levar outros ao “céu”, na realidade os conduzem ao “inferno”, esse é o único “mestre” que consegue contrariar a fala de Jesus: “O discípulo não é superior a seu mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu mestre”. (Mateus 6.40)

Para Jesus o discípulo que o seguisse não ia superá-lo, mas poderia se tornar igual ao mestre, mas os discípulos dos religiosos quebrariam essa lógica, na dimensão dos religiosos eles sempre vão além, conseguem transcender: “Faziam dos seus discípulos duas vezes piores que eles”!

O apóstolo Paulo mostrou que uma das formas de poderes demoníacos era justamente o que mais existe nas religiões:


“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”. (Colossenses 2: 14-15)

Ele não fala de um demônio com personalidade, mas sim de “principados” e“potestades”, que sobrecarregam a psique com a culpa por não atingirem nunca a “perfeição idealizada”.

Essa é um demônio antigo, revelado na religião, a maior criadora de“espíritos malignos”, como queiram chamar os ortodoxos, ou uma grande potestade e o maior diabo que é a Culpa!

A culpa é importante como preservadora da vida, ela se faz necessária, mas a falsa culpa despertada nas tradições religiosas, essa sim causa um mal irremediável ao ser humano.

Vejamos o exemplo daquela mulher aprisionada por “Satanás”:

“E veio ali uma mulher possessa de um espírito de enfermidade, havia já dezoito anos; andava ela encurvada, sem de modo algum poder endireitar-se". “Vendo-a Jesus, chamou-a e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade”. (Lucas 13.10-11)

A cura se deu no momento em que ao ouvir um homem falando com ela, e ainda no templo, sua estima foi ao alto, e ao subir a estima o seu corpo subiu juntamente com ela. A valorização da pessoa através do amor fez uma simbiose entre psique-corpo, e, veja o que aconteceu: “e, impondo-lhe as mãos, ela imediatamente se endireitou e dava glória a Deus”. (Lucas 13.13)

Em Impondo as mãos “sobre ela”, percebemos o efeito psicológico causado naquela mulher ao sentir a aceitação de Jesus? E a ação de impor as mãos sobre uma mulher que no mínimo estava debaixo de maldição para a sua sociedade? Afinal, carregava o estigma de ser a responsável pela entrada do pecado na humanidade!

A cura aconteceu na sua psique, o “Espírito” que aprisionava, não é uma questão se o “espírito” era ou não era uma entidade com personalidade, mas com certeza pode-se afirmar que esse espírito atuava num“sentimento de desvalorização”, ou o fatal “complexo de inferioridade”, e essa diluição do ser levava a mulher a encurvar-se.

Quantos hoje  estão aprisionados por Satanás a mais tempo do que essa mulher, através da religião onde há tanta culpa que os faz encurvarem...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A Responsabilidade é Minha, em Contrapartida a Culpa da Religião

Por Matheus De Cesaro

“A fé sem ciência é loucura, a ciência sem fé é fanatismo”
Martinho Lutero

Estou a alguns meses analisando e buscando entender algumas questões que envolvem crenças e convicções  associadas a violência e intolerância. E é certo que os nobres confrades concordam comigo que a violência é uma atitude um tanto quanto desprezível ao ser humano, sendo este dotado de racionalidade. É muito comum ouvir e ler frases de defesa a determinadas mazelas do tipo, “é culpa das religiões”, “é culpa da igreja”. Mas confesso que ultimamente eu fiquei muito inquieto e pensativo a respeito destas afirmações, que tendem a acusar, mas no fundo me parecem um mecanismo de defesa, um mecanismo de fuga as responsabilidades.  Percebendo  que há muitos religiosos que são exemplos de caráter, e que fazem o que for possível para promover a paz em todos os âmbitos, e também vendo uma infinidade de não religiosos que espumando nos cantos da boca promovem violência, ódio, ira e males a sociedade, resolvi tentar entender tudo isso, digo tentar, porque há algumas atitudes que são incompreensíveis (tanto de religiosos, como de não religiosos) se tratando de seres que em tese, pensam. Por isso quero aqui neste artigo falar um pouco sobre este “fanatismo”. Mas não o fanatismo religioso somente, mas sim, o fanatismo em si mesmo, nas nossas convicções. Que sejam as cartas lançadas sobre a mesa!


Começo trazendo o significado literal e etmológico do termo em questão.

"Segundo o dicionário Aurélio, fanático é aquele que segue cegamente uma doutrina ou partido, o termo não esta ligado unicamente a doutrinas políticas ou religiosas, pois tudo aquilo que leva o indivíduo ao exagero é considerado como forma de fanatismo. Esse termo tem uma de suas raízes no francês "fanatisme" e corresponde ao estado psicológico de extremo fervor, irracionalidade e obcessiva persistência naquilo que diz acreditar, independente de ser positivo ou negativo. É  extremamente frequente a paranóias, cuja apaixonada adesão a uma causa pode avizinhar-se de delírio e da insanidade."

Para a psicologia, o quadro clínico de um fanático se faz real, quando o mesmo apresenta sintomas como, agressividade fora do normal, multiplicidade de preconceitos irredutíveis, dificuldade de compreensão a outras ideias devido a uma estreiteza mental, uma extrema credulidade no que são suas convicções ou a um sistema de crença, ódio, criação de sistemas subjetivos de valores próprios e por fim um intenso, cansativo e incontrolável individualismo. 

Pessoas que apresentam este quadro clínico são tendenciosas a radicalismos extremos, e são levadas a uma completa intolerância com aqueles que ousam não compartilhar de suas ideias e predileções. Segundo diagnósticos psicológicos, pessoas com estes comportamentos são marcadas por atitudes irracionais e agressivas, que podem chegar a extremos perigosos, fazendo até mesmo uso da violência como recurso para defenderem seus pontos de vista.

Estamos acostumados a identificar estes comportamentos na esfera religiosa com mais frequência, mas gostaria de enfatizar aqui, que este comportamento doentio esta longe de ser um privilégio dos "religiosos", e se percebe também nos meios cientifico, politico, esportivo, e tantas outras áreas. Por isso debater dentro da esfera religiosa, atribuindo o fanatismo somente aos religiosos e fazer da religião uma válvula de escape para camuflar fanatismos internos, que seriam nossas próprias convicções que defendemos com unhas e dentes. Talvez a hipótese de que todos nós sejamos fanáticos em nós mesmos (próprias convicções) seja um ideia mais próxima de ser uma suposta verdade. Pois se analisarmos bem, com honestidade, é muito comum defendermos com muito empenho e determinação nossos discursos, os tornando plausíveis e coerentes ao momento e contexto em que estamos. E nisto, muitas vezes, nos tornamos inconscientemente (as vezes conscientemente, o que é uma lástima) intolerantes difundindo preconceitos, desavenças, ódio e raiva ao contraditório.

Se analisarmos a história das religiões e suas bases principais, suas origens, constataremos que todas possuem um objetivo principal definido, e em tese bom. Que é o aperfeiçoamento do ser humano por meio de um Ser maior, divino, que por meio de um processo especifico (conforme a crença escolhida) o aperfeiçoa no intuito de que se torne uma pessoa boa. Existe um alvo, uma diretriz, que se for seguida pela base principal, a origem da religião em si, não tem maneira de se produzir o mal, a não ser pela cegueira do fanatismo. Por isso insisto em enfatizar, que o mal nasce na esfera religiosa, quando se perde o alvo, o foco, e se deixa tomar pelos seus fanatismos internos, criando assim seus próprios alvos. Como disse o filósofo e ensaísta americano George Santayana ao falar sobre como via o fanatismo, "O fanatismo consiste em intensificar os nossos esforços depois de termos esquecido o nosso alvo". É para mim, aqui que nasce e reside o mal das religiões, no homem, e não na religião em si.

Longe de mim, tentar aqui inocentar a religião, apenas tenho o intuito de afirmar que assim como não é a religião inocente, também não pode ser ela culpada. Pois são os homens, somos nós que a construímos, é são nossas as responsabilidades pelas mazelas que surgem  e pela má compreensão da ideia são produzidas, e acabam pela mídia se tornando a  ferramenta que a transforma em um terrível monstro a ser combatido. Trago este assunto a tona, não por ser um religioso ferrenho, até porque não o sou. Mas pelo fato de perceber que se tornou meio que um "modismo" culpar a religião pelas mazelas existentes. É assim nos confrontos na Palestina, é assim no caso da homofobia, no caso do aborto não ser legal em alguns países, é assim sempre que há casos de violência e preconceitos, e no meio há alguém com a bandeira de alguma religião levantada. Seria tudo culpa da religião mesmo?

Eu participo de fóruns com religiosos e não religiosos, e vejo diariamente discussões onde acusam a religião de intolerância, e ao mesmo tempo agem contra a mesma com intolerância mutas vezes até maior. A grande maioria dos não religiosos expressam uma raiva gigantesca, ódio, e isso não acontece porque não são religiosos, mas sim porque alimentam convicções irrefutáveis em suas mentes, das quais seriam capazes de tudo para defende-lás. E então? A culpa é da religião?

Estas afirmações tendenciosas não seriam apenas fuga de suas próprias responsabilidades?

Até que ponto a religião é como afirmou Jung, "fundamental ao funcionamento do psiquismo e ajuda o homem a compreender realidades do universo que não podem ser conhecidos de outras maneiras".

Quando se encerra o fenômeno religiosos e entra em cena um quadro clínico de fanatismo, tornando a culpa desta atrocidades em nome da religião uma responsabilidade pessoal?

Encerro este pequeno ensaio, com uma frase do meu poeta e filósofo favorito, denominado pelos critícos de "filósofo pop", Friederich Nietzsche

"O fanatismo é a única forma de força de vontade 

acessível aos fracos"

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

SUBLIMINAR SUBLIME




Dizem os léxicos que mensagem subliminar é aquela não captada direta e imediatamente pelos sentidos. É a que fica latente, sugerida, mas não percebida de pronto.

Tenho para mim que um exemplo excelente de mensagem subliminar está no Evangelho de São Lucas, 5, 17-27.

Na passagem diz o evangelista que Jesus se punha a ensinar numa casa localizada na região de Cafarnaum e repleta de gente; e entre os do povo se encontravam também mestres da Lei e fariseus.

Durante a pregação alguns homens trouxeram um paralítico num leito, e debalde puderam introduzi-lo no recinto pelo acúmulo de pessoas.

Assim, abriram um buraco no teto da casa e desceram o aleijado em sua liteira, de forma que pousou bem próximo de Jesus.

Conta-nos São Lucas que vendo a fé que os animava “Jesus disse: ‘Meu amigo, teus pecados te são perdoados’”. Ora, tal frase espantou os presentes e mais ainda os fariseus e doutores da Lei, que acusaram Jesus de blasfêmia, porque só Deus perdoa os pecados.

Então Jesus replicou lhes perguntando o que era mais fácil de fazer: dizer que os pecados estão perdoados, ou levanta-te e anda? E arrematou: “Pois bem, para que saibais que o Filho do homem tem poder na terra para perdoar os pecados, eu te ordeno – disse ao paralítico – levanta-te, toma o teu leito e vai para casa”. A passagem é encerrada com o paralítico assim justificado tomando sua padiola e, levantando-se diante de todos, se indo embora.

À leitura deste texto e nos equivalentes sinóticos todos vêem uma passagem explícita de fé. Pois foi pela fé que subiram ao telhado, pela fé que desceram o aleijado, pela fé que não desistiram da difícil empreitada para assistirem à palestra.

Mas isto está declarado no texto, pois Jesus se admira da fé que os moveu. Então nesta mensagem, muito correta, não encontraremos a mensagem subliminar.

Outros vêem na cura do aleijado a misericórdia de Jesus, o que não ajuda, porque não foi este o único milagre que vimos o Salvador realizar.

Ainda, e agora um pouco mais aprofundadamente, outros vêem na assertiva dada pelos judeus, - de que só Deus pode perdoar pecados -, mais uma prova Divindade do mestre, uma vez que Jesus declarou que perdoava os pecados do paralítico, portanto, era Deus.

Todavia, entendo de maneira muito particular que a mensagem escondida por detrás de três ocorrências de grande impacto que se estendem aos nossos olhos – a descida do paralítico por uma abertura no telhado, a perplexidade dos judeus e a cura - uma outra, que talvez seja a mais importante de todas, e não obstante veio escondida, veio sugerida, veio ciosa de sua importância, resguardada com os véus da discrição, de forma que poucos pudessem efetivamente enxergar.

Trata-se do perdão dos pecados. Jesus prova que pode perdoar os pecados do aleijado (que ninguém vê), curando-o da paralisia (que todos vêem).

Este fato é importantíssimo porque além de provar que tem poder de perdoar os pecados, transfere este poder de representação primeiro a São Pedro, como se pode ver em Mt, 16, 13ss, especialmente na célebre passagem onde concede a São Pedro as chaves do reino e o poder de tudo ligar e desligar no céu e na terra.

Este poder foi transmitido também ao Colégio Apostólico (e daí aos bispos e padres por sucessão), como se pode ler em Jo, 20, 21-23: “Então Jesus lhes disse de novo: ‘A paz esteja convosco! Como o pai me enviou, assim também eu vos envio’. Depois destas palavras, soprou sobre eles e lhes disse: ‘Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; aqueles a quem retiverdes, serão retidos".

Eis aqui o Sacramento da Penitência detalhado. Certo que só Deus tem o poder de perdoar os pecados, como bem lembraram os fariseus e doutores da Lei neste mesmo episódio. Mas, por vontade divina transferiu-o aos homens por mandato; pela vontade divina deu-lhes as chaves do reino e o poder de ligar e de desligar.

Notem que quem tem a autoridade (Jesus, comprovada neste trecho) a transfere por vontade própria, primeiro a São Pedro, depois aos Apóstolos e seus sucessores, os epíscopos e presbíteros da Igreja militante.

Só pode transferir poderes aquele que os têm efetivamente. Só pode receber mandato válido quem o recebeu higidamente das mãos de quem os outorgou.

Daí o importante sacramento da confissão delineado em sua inteireza. Sacramento que vem sendo muito descurado pelos católicos, que à moda dos evangélicos, começam a se confessar “diretamente a Deus”, como se, mal comparando, fosse possível ir ao juiz sem passar pelo advogado.

Certo que é o juiz competente quem dá o direito de acordo com a Lei. Mas não o faz por iniciativa, por ação própria, mas aguarda inerte o movimento do interessado através do advogado.

O Reino dos Céus não difere disto. Se o leitor, se procuramos nossos direitos terrenos, sempre secundários, por meio de um causídico, por quais motivos não o fazer através do sacerdote em cuidando de coisas muito mais elevadas?

Escrito pelo Confrade João Cirilo

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A culpa é da religião








Wafa Sultan é uma psiquiatra síria que em 1979, quando ainda era uma estudante de medicina, presenciou o assassinato de um professor em plena sala de aula por integrantes do então grupo radical "Irmãos Muçulmanos".  A cena brutal mudou sua vida. Sua religião perdeu todo o sentido. "Naquele momento eu perdi a confiança no deus deles e comecei a pôr em dúvida todos os ensinamentos.", disse. Os assassinos do professor entraram na sala de aula gritando "Al-la u akhbar" (Deus é grande). Dez anos depois, já casada e mãe de dois filhos, realizou seu sonho de mudar-se para os Estados Unidos. Revalidou seu diploma mas o seu passado ainda a perseguia.  

Wafa passou a escrever suas opiniões acerca da religião em que cresceu e o impacto dela nos países árabes. No começo seus textos eram lidos somente pelo seu marido e por alguns amigos. Depois, decidiu escrever para um site crítico do Islã mantido por um imigrante sírio em Phoenix, Arizona. Seus textos começaram a chamar a atenção, inclusive também no mundo árabe. Wafa foi convidada para discutir suas ideias ao vivo no Al Jazeera, a rede de TV paga do Catar. Acabou se tornando uma celebridade, odiada ou amada nos países árabes. Wafa tornou-se uma ferrenha crítica do Islã. Ela no entanto não se preocupa especificamente com a questão das mulheres no islã ou das minorias sexuais. Nem acusa os terroristas de usarem mal a religião. Para Wafa, o islã em sí é o problema.


Declaração de Wafa no horário nobre da Al Jazeera:


"O que nós estamos vendo não é um choque entre religiões ou de civilizações. É o choque entre a civilização e o atraso, entre a barbárie e a razão. É um choque entre a liberdade e opressão, entre democracia e opressão. É o embate entre direitos humanos e os que violam os direitos humanos".  


O que ela estava dizendo era que a cultura ocidental estava em oposição à cultura ignorante e atrasada dos muçulmanos. Wafa defende a ideia básica de que o islã é, desde Maomé, uma religião que prega a violência contra não-muçulmanos. Diz que não são os terroristas que distorcem o islã, mas o islã distorce as mentes de seus seguidores a ponto de alguns deles se tornarem terroristas. O cúmulo da provocação para o mundo árabe é Wafa dizer que os judeus são exemplos a serem imitados: "Eles vieram da tragédia do Holocausto e forçaram o mundo a respeitá-los com seu saber, não com o terror, com seu trabalho, não com choro e gritos. A humanidade deve a maioria de suas descobertas e ciência dos séculos XIX e XX a cientistas judeus. Não vimos nenhum judeu se explodir dentro de um restaurante alemão. Nunca vimos um judeu destruir uma igreja. Nunca vimos um judeu protestar matando gente".


Como não poderia ser diferente, Wafa é tema de pregação furiosa de xeques em mesquitas em sua terra natal, a Síria. Ela é constantemente ameaçada de morte. Por ocasião da publicação de um artigo sobre ela na revista Época em 2006(do qual retiro as informações desta postagem) Wafa estava escrevendo um livro cujo título ainda não definido seria "A Prisioneira Foragida: Quando Deus É um Mostro". Pesquisando, achei o seu livro já publicado em inglês com o título: " A God Who Hates - The Courageous Woman Who Inflamed the Muslim World Speaks Out Against the Evils of Islam" - mas parece que ainda não foi publicado em português.


Muitas mulheres de países muçulmanos militam nessa frente de questionar as bases do Islã como Taslima Nasrin, Ayaan Hirsi Ali, Irshad Manji e Yenni Wahid. Esta última, uma indonésia, trabalha na política partidária de seu país e busca "um islã democrático, pluralista, multicultural e tolerante" - mas Wafa não acredita nisso. Em um debate na Al Jazeera, ela definiu sua crença ao dizer que não era nem muçulmana, nem cristã, nem judia e ouviu seu interlocutor, o xeque egípcio Ibrahim Al Khouli, acusá-la de herege e de ter blasfemado contra o Islã, contra o Corão e contra o profeta. Wafa respondeu dizendo que não acreditava mais no sobrenatural, que era uma pessoa secular. Disse também que as crenças das pessoas são assunto particular delas e devem ser deixadas assim. "Irmão, você pode acreditar até em pedras, contanto que não as atire em mim". Em outra ocasião já tinha declarado:
"O conhecimento me libertou do pensamento atrasado. Alguém tem de ajudar a libertar o povo muçulmano dessas crenças erradas".


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A transcrição do debate entre Wafa e o xeque

egípcio  Ibrahim Al Khouli pode ser conferida

AQUI