sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Nota Zero em "Ética Cristã" para o Jesus dos Evangelhos



Por  Levi B. Santos



1.  Muito embora Jesus tenha denominado o Rei Herodes de “raposa” ─, não convém ao crente assim proceder. Devemos dispensar o melhor tratamento às autoridades, mesmo que elas tenham, às vezes, condutas irregulares e hipócritas. Está escrito: “Toda autoridade provém de Deus”.


2 . Muito embora Jesus tenha cognominado de “sepulcros caiados”, os homens da Lei que estavam sentados na cadeira de Moisés ─, não é conveniente ao cristão assim o fazer. A boa ética manda que o crente tenha sabedoria e controle emocional, a fim de que não caia na tentação de detratar as pessoas.


3 . Muito embora Jesus não tenha encontrado onde repousar a cabeça ─, não é conveniente ao crente está falando mal das autoridades religiosas que enriqueceram graças aos seus extraordinários dons. As mansões, os carrões, as chácaras e o mar de riquezas que essas autoridades possuem, foram frutos do seu honesto trabalho. Está escrito: “Todo obreiro é digno do seu salário”.


4. Muito embora Jesus em sua missão tenha ido buscar pessoas para serem discipuladas, “extra-muros” do Templo ─, não é de boa norma, o crente organizar grupos para o ensino da palavra por aí afora. O Templo é o único local adequado para esse fim. Está escrito: “Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor”.


5 . Muito embora Jesus tenha entrado no templo, armado de chicote para expulsar os poderosos que faziam da Casa de Deus uma “bolsa de valores” ─ não é conveniente ao crente de forma desastrada, assim se comportar. Está escrito: “Não é por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor”.


6 . Muito embora Jesus tenha reprovado os religiosos de sua época, por adorarem os primeiros lugares no templo ─, não é ético para o cristão assim proceder. Em todas as igrejas, é de praxe, que os primeiros assentos sejam destinados às autoridades eclesiásticas. Está escrito: “A quem honra, honra”.


7 . Muito embora Jesus não tenha tomado uma atitude enérgica, quando os discípulos seus, invadiram um roçado de milho alheio, para saciar a fome num dia consagrado ao descanso ─, não convém ao crente assim proceder. Mesmo estando faminto, não ouse tirar nada de alguém, sem plena autorização. Está escrito: “Pedi e dar-se-vos-á”. Portanto, basta dobrar os seus joelhos e orar.


8 . Muito embora Jesus não tenha respondido a pergunta de Pilatos, sobre “o que era a verdade” ─, não convém ao crente, deselegantemente, silenciar diante da pergunta feita por uma autoridade. Peça a Deus sabedoria e Ele porá a palavra certa em sua boca. Está escrito: “Se estes se calarem, até as pedras clamarão”.


9 . Muito embora Jesus tenha dito de forma pública, que os escribas e fariseus, apesar de serem dizimistas, negligenciavam o mais importante, como a justiça, a misericórdia e a fé ─, é atitude reprovável e contrária à ética, o cristão expor aos quatro cantos do mundo uma simples falta (perdoável) dos seus superiores, ainda mais, se eles estiverem sentados na cadeira de Moisés. Está escrito: “E o oferecerá com a oferta sobre o altar, e assim o sacerdote fará expiação por ele, e será limpo”.


10. Muito embora Jesus tenha se posicionado contra os fariseus que enfrentavam todo tipo de obstáculos para ganhar almas, ocasião em que os denominou de duas vezes filhos do inferno ─, não é de bom alvitre o crente tomar tão irredutível atitude. Está escrito: “Mas que importa? Contanto que Cristo de qualquer modo, seja anunciado, ou por pretexto, ou por verdade... .” (Filipenses 1: 18).



P.S.: Este Manual de Ética foi postado originariamente no "Ensaios & Prosas" em março de 2009 com o título  - "Dez Conselhos Legalistas Sobre Ética Cristã".

sábado, 22 de setembro de 2012

Mente, Espírito, Alma: Ciência e ocultismo











Por Eduardo Medeiros





O cérebro humano é o artefato mais poderoso do universo. É ele, através da consciência (instância ainda bem desconhecida), que “cria” o universo. Sem uma mente consciente como saber o que existe? Sem a consciência, nada pode ser observado e ser nomeado como existente. Todo o passado do planeta (e do universo), obviamente, existiram antes de nós mas o próprio universo sempre foi potencialmente consciente, já que veio a produzir seres conscientes como  nós(uma tese que evidentemente, possui seus negadores).  O passado “existiu” porque mentes conscientes podem vislumbrá-lo por evidências por nós nomeadas.


As religiões antigas sempre souberam do poder fabuloso da mente consciente.


 Watchaman Nee, importante líder cristão chinês do princípio do século 20, entendia que o homem possui um poder latente que lhe capacita fazer coisas assombrosas.

Vejamos algumas citações do seu famoso livro “O poder latente da alma”:


“Embora não possamos taxar o poder de Adão como sendo um bilhão de vezes acima do nosso, podemos, não obstante, e com segurança, supor ser um milhão de vezes acima do nosso.”


Na concepção de Nee, Adão, imagem e semelhança de Deus, tinha o poder de ser como Deus:


"E Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" (Gn. 1:26). As palavras "imagem" e "semelhança" podem parecer iguais no significado e daí repetitivas. Mas no Hebraico a palavra "imagem" não indica semelhança física, antes denota semelhança moral ou espiritual. Alguém expressou assim: "transformado na semelhança"; isto é, "ser conformado a uma semelhança". O propósito de Deus ao criar o homem é para que este seja transformado segundo Sua imagem. Deus queria que Adão fosse como Ele. O diabo disse: "Sereis como Deus:" Mas a intenção original de Deus era que Adão fosse transformado para se tornar como Ele.”

 E ainda,

 “Disso concluímos que antes da queda, Adão tinha nele o poder de tornar-se como Deus. Ele possuía uma habilidade oculta que lhe tornava possível tornar-se como Deus.”

Mas quando Adão peca e cai, esse poder que ele tinha ficou “latente”, “oculto” mas não extinto. Ou seja, todos os homens e mulheres na  concepção de Watchaman  Nee possuem o poder de Adão em estado adormecido mas despertá-lo é perigoso, pois esse pode ser influenciado por Satanás. Então ele ensina que o cristão deve usar o poder do seu espírito, este sim, o elo de ligação entre o homem e Deus.


Nee reconhece que as tradições religiosas orientais se utilizam desse poder da alma(mente):


“no budismo e no taoísmo, e igualmente em algumas seitas do cristianismo, poder especial sobrenatural está disponível a todos eles, para efetuar milagres na cura de doenças e na predição do futuro.”


Outro famoso cristão de origem oriental, Paul Yonggi Cho (hoje conhecido por David Yonggi Cho, pois ele diz que Deus mudou o seu nome, curiosamente, procedimento  ocultista),  escreveu um pequeno livro que foi amado por muitos(inclusive por mim que o li ainda bem jovem e fiquei intrigado) e odiado por teólogos conservadores que viam na mensagem do livro flertes com o ocultismo(e eu não lhes tiro a razão): “A Quarta Dimensão: o segredo da vida de êxito mediante a fé”.  Ele diz em seu livro:


“Muita gente na Coréia que pratica ioga, está curando doentes por meio da meditação da ioga...temos dificuldades em explicar tais coisas. Não podemos simplesmente dizer que são manifestações do diabo..podemos v er milagres entre os iogues, milagres entre os sokagakkai(1). Estamos vendo milagres em todas as religiões orientais.”


Cho ficava espantado, pois como cristão, cria que somente Deus era capaz de fazer tais coisas através da fé dos seus filhos. Ele conta então que ficou em meditação e oração para entender o porquê de acontecer milagres em religiões orientais não cristãs. O que ele descobriu foi que existia no universo três tipos de espíritos: o Espírito santo de Deus, o espírito do diabo e o espírito humano; ele dizia da existência de 4 dimensões: a primeira dimensão pode ser ilustrada como uma linha reta entre dois pontos; se acrescentarmos linhas após linhas, numa progressão indefinida, teremos então a segunda dimensão. A terceira dimensão é representada por planos sobre planos. O mundo material e a terra pertencem ao universo da terceira dimensão.


A primeira dimensão está contida na segunda, que a controla, mas a segunda é controlada pela terceira. E quem controlaria a terceira dimensão? Resposta: o Espírito de Deus. Foi o Espírito de Deus quem pôs ordem ao caos original, incubando as águas e chocando-as(termo no original hebraico). O reino espiritual da fé pertenceria a essa quarta dimensão.  Como o ser humano é um ser espiritual (mente-consciente),


“Os homens, explorando sua fé espiritual na esfera da quarta dimensão, por meio de visões, imaginações e sonhos, podem influenciar a terceira dimensão, produzindo nela mudanças.”


Evidentemente que qualquer um, crente ou não, possui tal capacidade de influenciar a terceira dimensão, curando doenças, por exemplo. O lado cristão da tese de Cho entra na questão que nos incrédulos, o espírito humano de quarta dimensão entra em contato com o espírito maligno, realizado também os ditos “milagres”.


O subconsciente no entendimento de Cho  é o nosso espírito, que na Bíblia é chamado de “homem interior”. Ele também declara que antes de Freud, o apóstolo Paulo já havia descoberto o subconsciente quando se referia ao homem interior. A linguagem do subconsciente da quarta dimensão são os sonhos e visões.  Cho dizia  que


“você pode visualizar um novo campo missionário; pode visualizar o rápido crescimento de sua igreja. Por meio de visualizações e sonhos você pode incubar o seu futuro e obter os resultados...ver é possuir”


Hoje, David Yonngi Cho é pastor da maior igreja cristã do mundo, com mais de 700 mil membros.


 Um bom exemplo da manifestação desse  poder  através da visualização  é o caso das ovelhas de Labão e de Jacó.


Jacó faz um acerto com Labão: apascentaria o  rebanho do sogro e como pagamento,  todas as crias que nascessem malhadas ou escuras seriam dele. Malandramente, Labão retira do seu rebanho todos os animais escuros e malhados e manda-os para longe. Com um rebanho sem animais escuros ou malhados, Jacó praticamente não teria nenhuma cria nessas condições. Mas como Jacó era mais esperto, põe em prática um ritual de visualização criativa. Ele faz listras em varas de álamo, de aveleira e de castanheiro deixando a parte branca das varas exposta. Então, quando os animais iam cruzar olhando para as varas, as fêmeas pariam crias listradas e malhadas...E claro que Jacó só fez o ritual mágico com as fêmeas mais fortes.

Essa prática usado por Jacó é hoje conhecida como “visualização criativa”. Yonggi Cho, no seu livro, relata que achava essa passagem bíblica problemática, pois narrava um ritual ocultista ou mítico; mas então, diz ele, recebeu uma revelação espiritual:


“O caso é que você não compreende...estou aplicando aqui a lei especial da criação...Deus criou uma visão e um sonho na mente de Jacó. Antes seu subconsciente havia estado cheio de pobreza, fracasso e trapaça...mas Deus mudou a imaginação de Jacó, seu subconsciente, usando esta parede de varas malhadas e salpicadas como material a fim de ajuda-lo a visualizar e sonhar...Jacó olhou tanto para aquela parede que sua mente se encheu da visão: dormia e sonhava com as ovelhas dando crias malhadas e salpicadas...a imaginação do homem tem um grande papel na quarta dimensão”


Todo esse discurso de “imaginação”, “visualização” faz parte também do vocabulário ocultista com algumas diferenciações óbvias do entendimento cristão desses dois autores. Veja por exemplo esse texto de um autor ocultista:


“Existem duas polaridades de poder oculto no universo. Uma positiva e construtiva, podendo ser canalizada por sua mente para realizar coisas espantosas. A outra polaridade é negativa e destrutiva, sendo frequentemente usada por pessoas inescrupulosas para adquirir controle sobre mentes alheias...a polaridade positiva de poder oculto é chamada Bem ou Deus. A polaridade negativa é chamada mal, ou força diabólica, e representa os elementos destrutivos que predominam no mundo de hoje. O ocultismo lida com o espectro positivo de poder cósmico.Foi dado a você o poder de conhecer o futuro e predizer o resultado de certos acontecimentos em sua vida. Você pode ter uma linha direta de comunicação entre seus centros psíquicos superiores e a mente cósmica que controla o universo inteiro” . (O poder das forças ocultas, Anthony Norvell, Ibrasa).


Acontece que hoje em dia, cada vez mais cientistas têm estudado esse tal “poder da mente humana”. O que já foi misticismo, crendices e visto por céticos como pura enganação, hoje é estudado como uma realidade que não se pode negar. Por exemplo, vejam este texto do prefácio de uma edição especial da revista Scientific  American:



“Nem sempre nos demos conta de que o cérebro humano tem capacidades refinadas – e nem sempre óbvias – que podem parecer, pelo menos à primeira vista, sobrenaturais. Muitas dessas capacidades parecem incríveis – e  algumas realmente são. Afinal, não é pouca coisa poder acelerar o próprio processo de cura, usar a intuição para tomar decisões adequadas, encontrar nos sonhos pistas para solucionar problemas do cotidiano, entrever o futuro, persuadir outras pessoas por meio da escolha adequada das palavras, perceber o que o outro está sentindo e pensando só de olhar para ele. (revista  Scientific American especial mente e cérebro, n 33 ed dueto).

A questão é que tanto autores cristãos como Watchaman Nee e David Yonggi Cho, quanto  ocultistas que seguem tradições milenares cujas origens remontam ao antigo Egito (lembrem dos magos de Faraó que transformaram cajados em serpentes) e cientistas, estão falando da mesma coisa, cada um a partir da sua compreensão do fenômeno. E a conclusão é de que o cérebro-mente-consciente(alma-espírito-energias-ocultas) possui uma energia criativa assombrosa; é capaz de curar doenças, influenciar pessoas, prever eventos futuros. Esse tema é bem vasto, mas para este texto não ficar muito longo e cansativo, finalizo aqui, para quem sabe, voltar ao tema numa próxima postagem.


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1 - Soka Gakkai  é a designação de um movimento budista composto por aproximadamente 12 000 000 de pessoas no mundo inteiro. Tem, como base, o pensamento do monge japonês Nitirem (1222-1282)[1].

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A verdade sobre a mentira






Por Donizete.


Todos os seres humanos mentem, uns mais outros menos, mas todos mentimos. É próprio da natureza humana mentir, desde quando éramos pequeninos mentimos. Claro que há vários tipos de mentira, várias formas de mentir e não se pode negar que as mentiras tem intensidades e conseqüências diferentes.

Mentimos para não causar um desconforto, mentimos para sermos politicamente corretos, mentimos para não ferir a auto estima de alguém, mentimos quando tememos que a verdade traga conseqüências negativas para nós mesmos ou para alguém, mentimos quando a verdade não serve aos nossos propósitos.  

Em todas as culturas se mente, todas as pessoas desde as mais novas às mais velhas. Mentimos por necessidade, por piedade, por amor, por maldade às vezes. Mentimos  quando pretendemos passar uma imagem diferente de nós mesmos. Ou também quando razões externas nos pressionam a mentir. O fato é que nossa existência seria impossível sem este recurso que é a mentira. Mentir é uma habilidade que brota das profundezas de nosso ser, e nós a usamos sem cerimônia. Como escreveu o americano Mark Twain há mais de um século: "Todos mentem... todo dia, toda hora, acordado, dormindo, em sonhos, nos momentos de alegria, nos momentos de tristeza. Ainda que a boca permaneça calada, as mãos, os pés, os olhos, a atitude transmitem falsidade". Enganar é fundamental para a condição humana.

Por este motivo é que há alguns anos ocupam-se com o mistério da mentira não apenas filósofos, mas também sociólogos e psicólogos. E o resultado das pesquisas são impressionantes. Segundo alguns estudos, normalmente uma pessoa saudável conta uma mentira a cada dez minutos de conversação. E conclui que uma mentira vem aos nossos lábios cerca da 200 vezes por dia. Parece um exagero, mas não encontrei nenhuma outra fonte que apresentasse um resultado menos perturbador. Perturbador porque isto me leva a uma conclusão lógica: somos seres humanos, todo ser humano mente. Logo, somos todos mentirosos. E isto contraria meus conceitos acerca da mentira.

A revista Galileu da editora globo realizou uma entrevista com o jornalista alemão Jürgen Schmieder, que desenvolveu um projeto de ficar 40 dias sem proferir nenhuma mentira. O resultado foram hematomas, noites dormidas no sofá, muitos insultos e uma amizade quase perdida. O relato sobre esse período livre de mentiras, e cheio de confusões, está no livro "sincero - a história real e bem humorada de um homem que tentou viver sem mentir". Segundo seu relato não precisamos mentir mais do que 50 vezes por dia. Consolador!

Sabemos desde criança que mentir é um ato vergonhoso, que em toda a história da humanidade algumas mentiras, sobretudo aquelas em forma de calúnias, causaram muitas intrigas, levaram pessoas ao sofrimento, e fizeram derramar muitas lágrimas e sangue. Entretanto a história também está repleta de casos onde uma mentira livrou pessoas de morte iminente. Algumas inclusive bíblicas, como na caso de Raabe e das parteiras do Egito.Por isso estudiosos se dividem em suas opiniões acerca desse assunto.  

Os Filósofos Immanuel Kant, Benjamim Constant e Arthur Schopenhauer por exemplo, defendem, cada um, uma opinião diferente sobre este assunto: Na verdade a discussão se desenvolve a partir de um suposto direito de mentir diante de determinadas situações.. As argumentações de cada um deles são baseadas na concepção que cada um deles têm da natureza dos direitos e deveres, isto é, a questão que se discute é se o indivíduo tem ou não o direito de mentir.

Aos três pensadores é sugerido o seguinte: Um assassino bate à sua porta com a intenção de matar seu amigo que está escondido em sua casa. Você deve dizer a verdade quando o assassino perguntar sobre o paradeiro do seu amigo, ou deve mentir e dizer que o amigo não se encontra no local?

Para Constant, junto ao conceito de dever está o conceito de direito e  onde não há direitos, também não pode haver deveres, isto é, se o assassino tem a intenção de infringir a lei e matar seu amigo, tirando-lhe a vida, você não tem o dever de dizer a verdade porque o assassino não tem o direito a ela.
Onde nenhum direito existe também não há deveres. Por conseguinte, dizer a verdade é um dever, mas apenas em relação àquele que tem direito à verdade. Nenhum homem, porém, tem o direito a uma verdade que prejudica o outro. 

Para Kant, um indivíduo não deve mentir em hipótese alguma, nem mesmo em circunstancias extremas como no caso em questão. Kant afirma que não podemos evitar dizer a verdade em relação a qualquer pessoa, mesmo que esta verdade provoque desvantagem para nós ou para outro. E se proferimos alguma inverdade, mesmo com a intenção de poupar a vida do outro, cometemos, desta forma, injustiça para com o indivíduo que nos pressiona a proferir uma declaração.

Porém para Schopenhauer há certas situações, nas quais, podemos fazer uso da mentira sem injustiça. Estes são os casos nos quais usaríamos a força para nos defendermos de uma agressão, isto é, podemos fazer uso da astúcia quando precisarmos da força para nos defender, mas não pudermos contar com ela, ou seja, quando não formos fisicamente fortes o suficiente para nos defendermos da agressão física.

O Filósofo deixa claro que no exemplo citado, não seria injusto mentir sobre o paradeiro do amigo procurado pelo assassino, pois aquele que promete algo sob coação, através da força, ou acreditando em falsas premissas, não é obrigado a cumprir a promessa; e, no caso exemplificado, o dono da casa está sendo coagido pelo assassino.
Schopenhauer afirma que temos o direito de mentir para nos livrarmos de assaltantes e violentos de qualquer espécie, para defendermos nossa própria vida, nossa liberdade, nossos bens ou nossa honra.

A argumentação Schopenhaueriana, a favor do uso da mentira em determinados casos, vai mais além. Schopenhauer diz que podemos mentir em qualquer situação, na qual, uma pergunta seja intromissiva , indevida, indiscreta, ou se refira a algo que não nos convém dizer. Por exemplo: alguém nos faz uma pergunta indiscreta. A nossa recusa em responder pode vir a causar suspeita. Então nos devemos mentir para preservar nossa intimidade contra a curiosidade alheia. O Filósofo afirma que existem casos em que é nosso dever mentir; os exemplos de Schopenhauer são os casos da medicina, isto é, do médico para com o paciente e outras inverdades que podem ser consideradas nobres. Olha o exemplo colocado por ele.

Schopenhauer cita do Novo Testamento em João 7:8, no qual Jesus disse aos seus discípulos que subissem sós até a festa dos Judeus que queriam matá-lo, porque ele não iria. E depois que os discípulos todos estavam lá, Jesus subiu sozinho e passou desapercebido em meio ao povo até chegar em um lugar privilegiado para, então, de lá, falar sobre suas boas intenções e convencer os Judeus a não o matarem.

Com todos estes dados e opiniões não quero parecer leviano ou irresponsável ao ponto de parecer fazer apologia a prática da mentira, mas sim a fazermos uma introspecção e nos livrarmos desse falso moralismo de afirmar que em nós habita somente a verdade e nenhuma mentira. E termos consciência de que aquela mentira que falamos a uma criança é tão mentira como qualquer outra.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O Instinto e a Inteligência

Psicografia de Chico Xavier pelo espírito Emmanuel  (livro: A Semente de Mostarda)
 
        
A controvérsia prosseguia...
Alfredo e Pirilo, dois amigos dedicados ao estudo da filosofia, permaneciam, horas inteiras, dialogando sobre a função da alma humana.
Qual teria sido a primeira força a desdobrar-se na criatura recém-criada pela Sabedoria Divina? A inteligência ou o instinto?
Alfredo admitia que a inteligência teria tido a prioridade, enquanto Pirilo acreditava que o instinto teria sido o começo das tarefas evolutivas da alma humana.
O primeiro exaltava os méritos da razão, filha da inteligência, e o segundo se reportava ao instinto como sendo o agente da natureza que operava lentamente, preparando o caminho para o discernimento e, muitas vezes, Pirilo justificava o seu ponto de vista, acentuando:
-Do instinto para a inteligência, a estrada é longa a percorrer. De forma em forma ou de experiência em experiência, o instinto vai despindo a própria inferioridade, ou perdendo os impulsos selvagens, até conquistar a inteligência que o conduzirá ao discernimento e à razão. Por isso é que devemos usar de muita tolerância e paciência, de uns para com os outros, porque muitos irmãos se fazem delinquentes por excesso de agressividade, pelo estado de evolução deficitária em que se encontram.
Alfredo ouvia, esboçando gestos de incredulidade, até que, um dia, propôs ao amigo:
-Façamos uma experiência em que provarei a você que a educação cultivada pela inteligência dispensa todas as afirmativas que colocam o instinto na base do processo evolutivo. Demonstrarei que basta educar a inteligência e todo o primitivismo do instinto desaparecerá.
E continuou:
-Compraremos junto um gato comum, em cuja impulsividade o instinto esteja reinando... O gato ficará comigo em minha casa e me disponho a educa-lo esmeradamente. Daqui a um ano; convidarei você para almoçarmos juntos e o animal se portará com as características de um menino carinhosamente preparado para a vida social.
Concordaram ambos com o empreendimento e Alfredo levou o felino para sua própria residência.
Decorrido um ano, Alfredo solicitava a presença de Pirilo para o almoço do dia seguinte e comunicou:
-Você verá o prodígio da educação. O gato assimilou todos os meus ensinos. Tem os hábitos de um rapaz de certo nível intelectual.
Pirilo aceitou o convite com satisfação e na hora aprazada pela manhã do dia imediato, ei-lo com Alfredo na sala de estar. O dono da casa trouxe o gato ao exame do amigo. O visitante ficou encantando. O felino obedecia a todas as ordens do dono. Sentava-se, erguia-se sobre as patas dianteiras e retornava à posição certa, atendendo ao pedido do educador. Ao almoço alimentava-se em um prato especial, levando a comida à boca com a patinha direita.
Terminada a refeição, disse Alfredo, entusiasmado:
-Você viu, Pirilo, a superioridade da inteligência educada sobre o instinto?
-Estou vendo - respondeu o amigo.
Foi o momento em que Pirilo voltou à palavra e pediu ao companheiro que fechasse as portas do aposento em que se achavam e pediu licença para ver até que ponto chegaria o experimento do bichano.
Alfredo apoiou a solicitação, e Pirilo, enfiando a mão direita num dos bolsos do paletó, dali tirou uma caixinha da qual escapou um rato pequeno que saltou para a mesa, saltitando e correndo qual se estivesse sedento de liberdade. Bastou isso e o gato pulou apressado, perseguindo o rato e quebrando todas as peças em que o almoço fora servido, até que pegou o animalzinho e pôs-se a devora-lo à vista dos amigos espantados.
Foi quando Pirilo dirigiu-se a Alfredo, perguntando:
-Você vê, Alfredo, o poder do instinto que antecede a inteligência e a educação?
Alfredo sorriu com desapontamento, mas não disse palavra.

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Em momentos de fragilidade absoluta, somos seres racionais e treinados ou pulamos como o gato para o apelo da fé? A razão sofisticadamente treinada blinda o homem definitivamente ou crer e descrer é uma mera questão de oportunidade?  Uma situação limite como a cura de um ente querido inspira uma razão treinada a prosseguir, ou instintivamente o homem cede à tentação de uma oração sem compromisso?  (Mariani Lima)