sábado, 30 de junho de 2012

"Pobres Ateus"


                                                       
Pobre de nós ateus que, como cordeiros ingênuos, caímos em covis de lobos ferozes. Pobres de nós ateus que somos vilipendiados pelos intolerantes crentes, e não temos nem sequer a oportunidade de manifestarmos nossa opinião, pois tudo que falamos é tolice. Crentes estes que esqueceram que divino era só o mestre Jesus, e eles, assim como nós ateus, tombaremos sobre a mesma terra e apodreceremos a medida em que somos devorados pelos vermes. Vermes estes que, ao contrário do que disse o messias, acabará ao ver que nada de nós existe mais para ser consumido.

Pobre de nós ateus, que no início de nossa descrença ficávamos preocupados com o fato de nossas atitudes estarem fazendo mal aos irmãos que ainda creem. Pobre de nós ateus que não falamos para nossos filhos e para nossas velhas e crentes mães que Deus não existe mesmo. Pobre de nós ateus que nos calamos quando lá dentro, uma voz implorava para que gritássemos nos ouvidos dos crentes que nos aporrinham o saco com suas idiotices, que Jesus não salva ninguém, que céu é lugar de zumbi, e que é preciso ser por demais burro para acreditar em histórias tão absurdas como as que são contadas na Bíblia "Constantinizada".

Pobre de nós ateus que sofremos... sim, sofremos ao ver que não adianta nada falar que a ilusão da fé é o maior freio-social que já puderam impingir ao homem. Sofremos por vermos nossos irmãos... sim, irmãos, padecerem sob o jugo de pastores, padres, líderes espirituais de todos os tipos, sendo levados para um caminho de negação, flagelação de consciência, repressão de desejos humanos, (desejos estes, demasiado humanos), estoicismo em pleno século XXI e falência de intelecto.

Pobre de nós ateus, que não queremos o mal de ninguém, que procuramos viver em paz com todos, que desejamos ajudar, ou melhor, agimos em prol daqueles que necessitam de auxílio, seja ele financeiro, sentimental, ou moral. Pobre de nós ateus que não oramos para que o mundo se torne um lugar tolerável, ao contrário disto, nos empenhamos em deixar filhos melhores para este mundo e não um mundo melhor para filhos maus. Pobre de nós ateus, que não temos ajuda de cima, que não somos socorridos por deuses, que não somos protegidos por um criador, que vivemos na angustia, aguentando calado a náusea causada pelo enfrentamento da realidade.

Pobre de nós ateus, que olhamos para o céu e só vemos o negro do espaço disfarçado de azul pelas muitas camadas de atmosfera, não olhamos além disso, não esperamos ser notados nem amparados em meio aos conflitos sociais e existenciais, estamos sós, e sós permaneceremos sempre... pobre de nós ateus que não temos alma nem espírito, que não possuímos a pneuma divina em nosso interior, que nos garantirá a vida eterna ao lado do criador se bom formos.

Pobre de nós ateus, que não nos prendemos a histórias antigas, daquelas que as crianças fantasiam e acabam por usá-las como válvula de escape para seus medos interiores. Pobre de nós, que não conhecemos os mistérios do reino, que não temos sobre nós o sangue do cordeiro, que seremos atirados no lago de fogo e enxofre, apenas para satisfazer os caprichos desse deus mesquinho, apático e mimado chamado Jeová. 

Pobre de nós ateus, que desejamos que todos vivam, e vivam com abundância, enquanto que para nós é desejado apenas a morte... a pior delas, a saber, a morte da alma. Pobre de nós ateus que já ardemos em fogueiras "santas", queimados como hereges... mal sabendo eles que os hereges são todos aqueles que acendem a pira e contemplam as chamas lamberem a carne do incrédulo. Pobre de nós ateus que não cremos em nada e mesmo assim somos chamados de filhos do demônio, decepcionados, frustrados e carentes de uma experiência verdadeira de fé. Será que eles não percebem que o "demônio" aplaude e faz festa ao ver um irmão condenar o outro ao "inferno"?

 
Pobre de nós ateus, quando vemos que a loucura torna-se lógica quando a verdade torna-se indiscutível. Foi o que ocorreu também durante a Inquisição: para salvar a alma do desgraçado ateu, exigiam que ele admitisse estar possuído pelo diabo; se não admitia, era torturado para confessar e, se confessasse, era queimado na fogueira, pois só assim sua alma seria salva. Tudo muito lógico. E os inquisidores, donos da verdade, não duvidavam um só momento de que agiam conforme a vontade de Deus e faziam o bem ao torturar e matar os pobres ateus.

Pobres, sim, somos pobres ateus, mas não apreciem estas linhas com o lamentos, e sim como regozijo, pois são justamente estes pobres ateus que experimentarão as maravilhas do mundo, que errarão tentando acertar, que perder-se-ão buscando novos caminhos, que perguntarão e não obterão respostas, e essas dúvidas serão o combustível que os levarão a entender que não possuem a verdade de nossa existência, que não se conformarão com o mal deste mundo, mas antes, se transformarão pela renovação constante de seu entendimento, experimentando assim, a boa, perfeita e agradável vontade da natureza  humana.

Enfim...

Pobre de nós ateus que não temos crise de consciência (mentira, temos sim), somos ateus, e eu pelo menos, pregarei o ateísmo até que a matéria orgânica que me compõe exaura suas energias, fato conhecido como morte. Morrerei negando a existência de qualquer tipo de deus. Nego-me a desperdiçar minha última palavra com algo que não seja um alto e sonoro: "Deus não existe".  Aliás...consciência? O que é isto senão uma maneira mais educada, e polida para disfarçar a palavra...covardia.

Noreda Somu Tossan

terça-feira, 26 de junho de 2012

O zelo da tua casa me consome



“O zelo da tua casa me consome”

João 2, 13-25

Jesus entra no Templo de Jerusalém e com o chicote em mãos expulsou todos os comerciantes e todos aqueles que não respeitavam o local como casa de Deus.

O Templo de Jerusalém era o centro religioso e político de Israel. Era uma construção de impressionar e encantar pela beleza e pelas estruturas. Todo israelita precisava oferecer seus sacrifícios e para tanto tinha que comprar os produtos no Templo onde a moeda corrente era trocada pela valorizada moeda do templo, ou seja, especulação.

O povo mais simples era explorado. Nas festas tinha que comprar os pombos para oferecer em sacrifício. O dinheiro que entrava no Templo ficava com o sumo-sacerdote e sinédrio (tipo de parlamento daquela época).

Os grandes comerciantes por sua vez ofereciam propina para participarem dos negócios do Templo e o Sumo Sacerdote a aceitava.

Além de todas estas atitudes mencionadas acima, era comum o Sumo Sacerdote apropriar-se pela força das peles dos animais degolados que deveriam pertencer aos outros sacerdotes, vai aos sítios roubar o dízimo que lhes é igualmente destinado, ou usa a intriga, a chantagem e até o assassinato.

O Templo de Jerusalém era uma fonte religiosa e principalmente financeira para manter o sinédrio da época.

Conhece hoje algo parecido? Enormes Templos? Anúncios de Prosperidades? Distribuição de curas e milagres em troca de dinheiro? Falsos profetas cobrando uma fortuna para aparecer? Administradores e não mais pastores? Corrupção? Politicagem? Artistas da fé? Líderes com vida luxuosa a custa das ovelhas? Espetáculos? Lobos vestidos de pastores?

Também a distribuição dos locais determinados dentro do Templo eram injustos e preconceituosos.

Perto do Santo dos Santos (onde se dizia que Deus ficava atrás de um véu) estava o Sumo-Sacerdote, depois, vinham os sacerdotes, depois vinham os homens israelitas e finalmente (lá no fundo do templo) as mulheres e fora do Templo os gentios (pagãos).

A santidade destas classes era medida pela aproximação do Santo dos Santos. Portanto as mulheres eram vistas menos santas ou mais impuras que os outros (com exceção dos gentios).

Imagino Maria como boa israelita, entrando grávida ou com Jesus no colo no Templo de Jerusalém para as celebrações! Ela carregava no seu ventre o Santo dos Santos: Jesus! Portanto as mulheres estavam mais perto da santidade! Jesus filho de Maria a Arca da Aliança! Deus devolve a dignidade a quem pertence!

E foi também para uma mulher marginalizada, a samaritana, que Jesus indicou o caminho da adoração:

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”. João 4:23-24

João relata uma fala de Jesus sobre a destruição do Templo:

Jesus respondeu, e disse-lhes: Destruí este templo e em três dias o levantarei.
Disseram então os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu o levantarás em três dias? Mas ele falava do templo do seu corpo.  João 2, 19-21

Em 70 D.C. o Templo foi destruído.

Mas foi através de uma acusação falsa que Jesus realmente foi consumido pelo zelo e amor a todos nós:

Ora, os príncipes dos sacerdotes, e os anciãos, e todo o conselho, buscavam falso testemunho contra Jesus, para poderem dar-lhe a morte; E não o achavam; apesar de se apresentarem muitas testemunhas falsas, não o achavam. Mas, por fim chegaram duas testemunhas falsas,
E disseram: Este disse: Eu posso derrubar o templo de Deus, e reedificá-lo em três dias.
Mateus 26, 59-61

E era já quase a hora sexta, e houve trevas em toda a terra até à hora nona, escurecendo-se o sol;  E rasgou-se ao meio o véu do templo. E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou. Lucas 23, 44-46

Entende agora o porquê desta reação abrupta de Jesus ao usar o chicote no Templo? Entende o porquê logo após o berro de Jesus na cruz o véu do Templo rasgou-se em duas partes?

Deus não habita atrás do véu da mentira, Ele habita em vós, pois sois o templo do Espírito Santo!

Ao rasgar o véu do templo onde se dizia que habitava Deus no Santos dos Santos, Jesus quis deixar bem claro que o lugar mais santo é a pessoa humana, de forma preferencial pela urgência, os mais sofridos e pobres. Comumente não procuramos Deus onde realmente Ele está.

"Não sabei vós que sois templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós é santo"
 (1 Co 3.16, 17).

Toda injustiça social é uma agressão ao templo vivo de Deus que é a vida humana. Esta dignidade é inalienável e deve ter total primazia. Ir contra a vida é afrontar o próprio Deus!

Pois o zelo da tua casa me consumiu, e as injúrias dos que te ultrajam caem sobre mim.          (Sl 69,9)


Gilber†o Ângelo Begia†o

                                            

sábado, 23 de junho de 2012

O pecado involuntário


O grego Orígenes (182-254), escritor eclesiástico e professor da Escola de Catequização em Alexandria, era o teólogo mais eminente da antiguidade cristã e o primeiro defensor de uma pesquisa bíblica crítica. Com sua formação platônica, Orígenes deu à “Escritura Sagrada” interpretações alegóricas tornando-a acessível à mentalidade da época. O quinto concílio condenou o dissidente e proclamou a sua exegese como desvio da fé.  “Aquilo que, doravante, deve ser aceito como a fé verdadeira, será proclamado única e exclusivamente pela alta hierarquia eclesiástica, inspirada pelo ES, a cujo cargo fica a convocar as pessoas devidamente inspiradas”.  Com esta deliberação conciliar, teve início a perseguição não somente aos numerosos adeptos de Orígenes, mas a todas as pessoas de credos diversos.
A Bíblia não é a “palavra de Deus”. Os ensinamentos da fé elaborados nos primeiros cinco concílios por toda uma legião de príncipes da igreja, apesar do carisma dos conciliares, não foram inspirados pelo Espírito Santo. Para o leigo crente e simples, isto constitui um choque muito forte por se encontrar despreparado.
O que acontece com Jesus? Existiu? Deu seu sangue na cruz por “nós, pecadores”? Teria pregado, ele próprio, o que relata o Novo Testamento? E, se os textos supostamente divulgados por Jesus não foram de sua autoria, de onde provêm as 1500 cópias dos textos primitivos? Um só personagem dos muitos que sofreram a morte na cruz não pode sustentar e perpetuar tamanho culto à pessoa. Todavia basta, por exemplo, ler os comentários feitos pela junta de autores a respeito de “Jesus, Filho do Homem”, de Rudolf Augstein, para nesta tentativa de contestação, reconhecer a antiquíssima técnica que Joachim Kahl qualificou de “encobrimento”.
Os teólogos cristãos constituem em pedra angular da religião cristã, o dogma religioso, o dogma de Jesus e exigem validade inconteste deste poder não comprovado. As centenas de milhares de pastores e padres de todas as igrejas cristãs perderiam a si próprios e o seu cargo se não pudessem mais agir em “nome de Jesus”. Honestamente e sem leviandade, deveriam dizer ao seu dizimista, sentado ali na 13ª fileira de bancos da sua luxuosa nave central que Jesus de Nazaré não é o “Filho Unigênito de Deus” e jamais se proclamou como tal. A que título as igrejas cristãs invocam um Jesus que não existe, ensinamentos que ele não deu, autoridade que ele não outorgou e uma qualidade de filho que ele jamais reclamou?   Pois não me foi dado crer simplesmente porque para tanto fui mandado”.
Ao longo de dois milênios, desde o nascimento, o cristão carrega um fardo intolerável. Explica-se a ele que já nasceu manchado pelo pecado original e, para livrar-se deste, precisa do “Salvador”. Aprendemos na igreja que Deus é o começo e o fim de tudo, que é o alfa e o ômega, que Deus é todo-poderoso, todo-bondoso, todo-justo, onisciente, sublime, eterno e onipresente. Este é o conceito que aprendi sobre Deus. Mas Deus também é infinito por ser eterno. Ele desconhece o hoje, o amanhã. O Deus eterno e onipresente não precisa esperar pelos resultados de suas medidas já que os conhece de antemão. Pois, pois...
Deus em sua infinita bondade, brindou duas pequenas e ingênuas criaturas humanas com a estada no paraíso, o lugar de alegria e felicidade. Os eleitos foram denominados Adão e Eva que viveram dias despreocupados, sem anseios nem saudades. Mas havia uma proibição feita por Deus:  Comer a fruta do conhecimento, aquela árvore era proscrita. É estranho. Porque o Todo-poderoso deu proibição tão rigorosa?  Teria Ele, tido prazer com aquele jardim de infância? Poderia Deus participar do sentimento humano?  A Mariani Lima tem uma resposta:  Deus queria dar o amor e desejava que os dois participassem do seu reino. Segundo esta interpretação, Deus teria ansiado por companhia ou amor. A meu ver estes sentimentos não condizem com Deus, que, em sua qualidade de todo-poderoso se sente irrestritamente feliz. O Eduardo Medeiros de Jesus afirma que Deus queria tentar Adão e Eva fazendo-os passar por uma prova. Mas Edu, assim não dá!...Seria tão mesquinha sua opinião sobre Deus? “Tentação e prova” seria jogar com cartas marcadas. Uma trapaça? Já que, de antemão, Deus, “onisciente” conheceria o resultado desta tentação e prova. Levi Bronzeado, não vale a réplica de que Adão e Eva estavam perfeitamente  à vontade para comer ou não da árvore do conhecimento, pois, também a este respeito, Deus teria sido informado de antemão. De qualquer modo vamos levar a ideia até o fim. Suponhamos que eles não tivessem mordido a maçã paradisíaca. Neste caso, Adão e Eva, nús, continuariam brincando no paraíso até hoje? O que teria acontecido se, sem provar do fruto proibido, jamais tivessem ficados cônscios de sua nudez e com isto das suas possibilidades de procriação? Haveria Deus, então, ter criado homens e mulheres em série? Homens e mulheres que por sua “livre e espontânea vontade”, jamais teriam almejado o conhecimento, por obedecerem à proibição divina? Anja Arcanja, não adianta dizer que  Adão e Eva foram induzidos a comer a maçã. Houve tentadores, o Diabo ou a serpente. Mas Anja, toda criatura provém de Deus, assim aprendemos. Por conseguinte, o Diabo e a serpente também foram criados por Deus. Teria, então, o Deus bondoso criado o Diabo e a serpente para fazer parte do circo  e com sua assistência, provocar os seres humanos simplórios? E se assim  fosse, porque Deus ficou tão ofendido com a refeição vegetariana, a ponto deste pecado ficar inexterminável no mundo por ele criado?  Ele sabia o que iria acontecer. Sinto a Guiomar Barba me puxando pelo braço: não foi bem assim não; Lucifer, o Diabo, era um renegado do reino celeste de Deus. Não entendi Guiomar... Um renegado ao reino celeste de Deus? Como? Se o “reino do céu” equivale à felicidade, conforme está sendo prometido aos fiéis, então por lá não pode haver oposição, nem rebeldes, nem renegados. Ou é ou deixa de sê-lo. Se o reino de Deus garantisse  o estado da felicidade completa, dificilmente “Luc” teria a ideia de agir contra Deus. Se, porém, no Reino do Céu não existiu a felicidade absoluta, então Deus não teria sido onisciente bastante para criar tal clima. Edson Moura, vou lhe dar razão quando você não encontra motivação lógica para a contenda entre Deus e o Diabo. Antes de Lucifer ter se aproximado do casal paradisíaco, para tentá-lo, Deus deve ter sabido que a tentação vingaria. Na questão do “livre arbítrio” de Adão e Eva, mesmo com a inclusão de “Luc” assume aspecto de Deus “ex machina”, pois tanto Lucifer como Adão, Eva ou a serpente agiram dentro da vontade e da ordem recebida de Deus, o onisciente. A história do criacionismo se faz sem pé nem cabeça, além do mais eu não gosto de maçã nem pequei involuntariamente. Elídia, foi você quem pediu para eu postar sobre os mithos.
Se quiserem saber mais, minhas fontes são: Sam Harris, Richard Dawkins, Erich Von Däniken, Stephen Hawking e outros cristãos. AMÉM.                                                             

terça-feira, 19 de junho de 2012

CENTROS DE RECUPERAÇÃO, PORQUE RECUPERAM TÃO POUCO?




Queria começar este artigo dizendo que, por ter me internado em dois centros de recuperação e ter conhecido de perto outros vários e até sendo secretário e vice-diretor de um, falo um pouco do que vi, convivi e percebi por alguns dos centros por que passei.

            Em primeiro lugar gostaria de citar que os centros que passei eram centros vinculados a igrejas evangélicas, sendo que em poucos (bem poucos mesmo) destes, eu pude constatar uma real preocupação do líder das instituições religiosas (pastor) pelas vidas que por lá passavam;jovens que permaneciam ali em regime de internato por cerca de seis meses. Sendo que a grande maioria dos centros de recuperação que tive a oportunidade de conhecer, havia um interesse não na recuperação do dependente, mas sim, no que ele poderia significar em termos de retorno financeiro, dinheiro (este vindo de doações, tanto de empresários como de voluntários) e verbas dos governos municipal, estadual e federal, esta é a dura realidade.
               
            Bem, o que eu percebi nos centros por que passei foi uma total falta de estrutura, falta de fiscalização do governo, falta de apoio por parte das convenções destas igrejas que por muitas vezes, tem seus cofres abarrotados, mas que não investem nada ou quase nada perto da quantia que estas convenções (estas convenções são órgãos a que as igrejas estão sujeitas como a CBN, CBB entre outros “cês” espalhadas pelo nosso Brasil) guardam em seus cofres, dinheiro, que a meu ver, deveria ser usado para recuperação de vidas, seja dentro dos centros (os dependentes propriamente dito) seja na sociedade, na ajuda aos mais necessitados e menos favorecidos da sociedade, mas se não fazem isto nem com uma parcela de seus missionários espalhados na obra, porque motivos fariam com dependentes, marginalizados ou até mesmo os mais necessitados? Sem contar o preconceito sofrido por grande parte da sociedade e até mesmo pela membresia das igrejas (geralmente uma pessoa só deixa de ser preconceituosa depois de ter um de seus entes ‘depend-ente’) aos quais os centros são vinculados.

            O que falta nos centros?

            1- instalações apropriadas. Em geral, são sítios ou chácaras com pequenas casas e pequenos quartos que por vezes, pessoas chegam a dormir no chão.

            2- falta de monitores e auxiliares devidamente habilitados e treinados. Em geral estes monitores são ‘ex-dependentes’ que passam a morar nos centros e a ocupar o cargo de monitores destes centros, mas sem nenhum tipo de especialização ou treinamento, vale ressaltar que os mesmos trabalham nos centros sem salário, com a promessa que após um ano de experiência, será promovido a obreiro, e passará a receber seu salário, o que não acontece, pois após um ano, a maioria é dispensada com a desculpa de não ter atendido as expectativas a contento.

            3- falta de uma verdadeira terapia ocupacional, sendo realizados apenas trabalhos de limpeza nas dependências do centro, como faxinas, capinas, e até na construção e reformas dos centros, e/ou das igrejas.

            4- falta de profissionais específicos (psicólogos, psiquiatras e terapeutas).

            O que sobra nos centros de recuperação?

            *Excesso de fé em deus e uma crença absurda de que todo dependente vai se recuperar simplesmente passando seis meses nos centros e freqüentando o culto nas igrejas e, que com muita oração e jejum, todos os problemas se resolverão, coisa que obvio, não acontece.

            Mas há sim casos de recuperação plena, a casos de dependentes que abandonaram de vez o vicio e chegaram a serem consagrados pastores. Há casos que seis meses de internação resolvem. Mas a casos que não. Mas o que eu queria expor aqui é o total descaso da sociedade, do governo e até da igreja, que preconceituosa, acaba jogando de novo, muitos na droga.

            Enquanto não tratarmos as pessoas como seres individuais e com problemas individuais, assim como o grau de dependência, que também é individual, continuaremos falhando na recuperação de vidas. Enquanto não nos conscientizarmos de que cada ser, cada pessoa é um caso individual e não coletivo, vidas continuarão indo e vindo aos centros de recuperação (pois a porcentagem de reincidentes é altíssima) vidas continuarão sendo ceifadas pelo crack. Enquanto a igreja não se despir dos dogmas, continuaremos perdendo vidas e vidas preciosas.

            Engraçado, agora me lembrei de um fato aqui em minha mente, certa vez quando um amigo meu dono de uma rede de lojas em Belo Horizonte e que tinha certa influencia tanto com políticos, tanto com autoridades das mais diversas bases, tentou conseguir uma alvará do IBAMA para que fosse solto pássaros e aves silvestres não só no sitio em que ele morava, mas em todo o condomínio onde eu também tenho uma chácara, fazendo daquele lugar um viveiro de aves livres e bem tratadas, tamanha foi a burocracia e exigências que ele acabou por desistir. O que será que se exige para que se abram centros de recuperação?

            Anderson Luiz de Souza

sábado, 16 de junho de 2012

Você é um cristão?




By Daniele Faedda Pusceddu*

Caminhava na rua, já era madrugada, por volta de 02 horas da manhã, quando uma pessoa me parou com um folheto, desses de evangelismo, e pediu um pouco de minha atenção. Escutava aquela pessoa pacientemente, enquanto ela tentava me explicar o porquê eu deveria aceitar Jesus como meu senhor e salvador. Em certo momento da exposição interrompi o discurso e perguntei: “você é cristão?”. A resposta era positiva, mas algo eu não compreendia... Era uma noite de maio, uma fria noite de maio, os termômetros marcavam 10 graus. Aquele jovem estava muito preocupado com meu futuro, em me livrar do “inferno” e do tormento eterno, entretanto, eu só conseguia ver dois adolescentes pobres, moradores de rua, que se encolhiam, um encostado no outro, procurando se esquentarem.

Foi então que eu novamente o interpelei, e disse: “veja ali (apontando para os dois adolescentes), o que você vê?” Ele não deu muita importância e me disse que ali ele via o poder do pecado que destrói a vontade de Deus. E embora eu concordasse com ele, ali havia o poder do pecado, não podia conceber que o pecado fosse primeiro dos dois adolescentes pobres, moradores de rua! E então eu disse: “e você acha que Jesus estaria fazendo algum discurso para mim, ou acolhendo os dois miseráveis em sua misericórdia?”. Bem, aquele jovem cristianizado concluiu o que queria e se foi, eu, ao invés, fui buscar agasalhos para os dois moradores de rua, com o intuito de aliviar o sofrimento deles.

Acontece que ser cristão é necessariamente ser movido por compaixão, ter compaixão. Você pode confessar Jesus como seu senhor e salvador, quantas vezes quiser e desejar, como dizem alguns evangélicos. Você pode pregar no nome dele, curar, expulsar demônios no nome dele, mas, se você não tiver compaixão, você nunca será um CRISTÃO. Aliás, Jesus nunca mandou ninguém fazer discursos de salvação para ninguém, entretanto, ele disse que era nossa obrigação ter ações de salvação pelo próximo. Agir é muito mais do que falar de Jesus, agir é muito mais do que confessar senhorio de Jesus, agir é vivenciar a vida do próprio Cristo como se nossa própria vida fosse! E ele mesmo disse isso, quando em uma conversa afirmou que não iria reconhecer diante dele muitas pessoas, e que elas o questionariam, dizendo ter elas feito sua vontade, pregado, anunciado seu nome, expulsado demônios e curado pessoas. Mesmo assim ele disse que não iria reconhecê-las; pois quando teve sede, nenhuma delas lhe deu um copo d’água; que quando fome teve, nenhuma delas lhe deu um prato de comida; que quando estava nu, nenhuma delas, que pregaram seu nome, expulsaram demônios, ou curaram, vestiram-no; que quando esteve preso, nenhuma delas que um dia o confessaram como senhor e salvador foram visitá-lo! E que ainda sim elas se indignariam, mas que não haveria jeito, pois quando negaram de fazer aos pequeninos, aos pobres, aos excluídos, ao próprio Cristo elas deixaram de fazer. Não tiveram COMPAIXÃO!

E o que é compaixão? Na verdade é o próprio sentimento que Deus teve pela humanidade, em querer aliviar a dor dos homens; sentimento que o permitiu não se ver como Deus, antes de se esvaziar de si mesmo e assumir a figura de pobre (servo) e se humilhar, fazendo-se homem e morrer na cruz para o nosso bem. A compaixão é frequentemente caracterizada através de ações, na qual uma pessoa agindo com espírito de compadecimento busca ajudar aqueles pelos quais se compadece.

Então você é cristão? Mas você já amou um pobre hoje?










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*Daniele Faedda Pusceddu, de origem Sarda, é mestre em Filosofia, e graduado em Teologia e Direito.

Professor  universitário apaixonado por Letras e Literatura, em especial, a decadentista por descrever uma sensibilidade estética marcada pelo subjetivismo, pela descoberta do universo inconsciente e pelo gosto das dimensões misteriosas da existência, que ocorre no fim do século XIX, em especial na França.

É colunista exclusivo do blog Mundo Da Anja, onde apresenta  textos sobre teologia da libertação. Daniele ainda dirige um grupo voltado a Tdl em Belo Horizonte.



terça-feira, 12 de junho de 2012





                                                 AMOR OU FALÁCIA?

“Entraram em Cafarnaum e, logo no sábado, foram à sinagoga. E ali Ele ensinava. Estavam espantados com o seu ensinamento, pois Ele os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” (Marcos 1.21).

“Os escribas e fariseus estão sentados na cátedra de Moisés. Portanto, fazei e observai tudo quanto vos disserem. Mas não imiteis suas ações, pois dizem, mas não fazem. Amarram fardos pesados e os põem sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos nem com um dedo se dispõem a movê-los...” disse Jesus (Mateus 23.4).

São muitos os que hoje têm abandonado suas igrejas, por não suportarem o cheiro das águas pelas quais elas têm navegado. Mas, entendemos que apesar de Jesus estar sempre em contato com os mestres das sinagogas, ouvindo-os e conhecendo o proceder deles, não foi fator determinante para que o Mestre abandonasse as  sinagogas ao sabor de ensinamentos dos fariseus e escribas. Tolerante, Ele “suportava” a presença dos escribas e fariseus hipócritas, dos mestres inadequados, sentado entre eles numa postura educada. E talvez por esta mesma disposição Ele fosse convidado a ministrar nas sinagogas. Quanto ao povo, estes reconhecia que Ele ensinava com autoridade.

Nas suas ministrações Jesus não se esquivava de falar com verdade, Ele não tratava de agradar aos ouvintes e muito menos a castas privilegiadas. Ele não incorreu no mesmo desacerto de muitos teólogos e pregadores de hoje, que como diz um artigo da Ultimato: “Por não suportarem a pressão, estão atendendo ao clamor das multidões. Quando não se omitem, pregam “outro evangelho”. Tornam-se assim, corresponsáveis pela brecha cada vez maior que provocará a queda do muro de proteção da felicidade.” (Parafraseado por mim).

Se Jesus houvesse abandonado as sinagogas, não teria visto o tamanho do fardo que os fariseus e escribas estavam pondo sobre os ombros dos homens, por consequência não haveria apresentado seu fardo leve e o seu jugo suave. Não teria ouvido o clamor dos aflitos. A mulher recurvada há dezoito anos sob o peso de uma enfermidade espiritual permaneceria olhando apenas o chão, em nome da pressão teológica dos fariseus e herodianos. O homem da mão atrofiada, não teria recebido a sua cura. Não teria sido expelido o espírito impuro de um homem que vivia atormentado. E foi também no templo que Ele pronunciou um duro discurso: “Guardai-vos dos escribas que gostam de circular de toga, de ser saudado nas praças públicas, e de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e os lugares de honra nos banquetes; mas devoram a casa das viúvas e simulam fazer longas preces. Esses receberão condenação mais severa”.

Foi na sinagoga que Ele, oportunamente, chamou apenas os seus discípulos e ensinou sobre o ofertório, tomando como exemplo a doação da viúva pobre que deu tudo quanto tinha, enquanto os outros davam do que lhes sobrava.

Jesus convocou os doze discípulos e ensinou-lhes através da sua própria vida, a não amoldarem-se às influências do seu século, mas fazerem diferença, sendo sal e luz em um mundo insalubre e trevoso.

Infelizmente, no contexto atual, a igreja tem sofrido demolições, principalmente por parte daqueles que deveriam apascentá-la em pastos verdes e águas tranquilas, à exemplo do Sumo Pastor – Jesus.

Mesmo considerando toda a panaceia criada por falsos mestres, que confunde ovelhas, desgarra outras e mata inúmeras, acreditamos que O grande Mestre não abandonou as igrejas, embora a sua presença não impeça que estes destilem seus dogmas. À semelhança do barco, Jesus está presente.

“A presença do Senhor ali naquele barco não impediu que o céu se escurecesse tornando a noite mais trevosa; nem que o vento viesse rugindo transformar a quietude das águas em ondas furiosas e bramantes, arremessando-se sobre o barco, ameaçando naufragá-lo. Parece que forças infernais se abatiam ali para surpreender o Messias num momento de sono repousante. Vê-Lo afogar-se nas águas que Ele próprio criara, poderia ser uma alta vitória infernal.” (Pr. e teólogo Renê Pereira Feitosa).

Também sou daquelas que creem que a Igreja (invisível) antecede e transcende a História. Se isto é fundamentalismo, não abdicarei dele. Mas jamais quero esquecer que a Pedra Fundamental viveu o amor em toda a sua plenitude. O que não for fruto do amor é apenas falácia.

Por Guiomar Barba.