terça-feira, 29 de maio de 2012

A causa do Reino e a família

“Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14.26; ARA)

“Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mateus 10.37; ARA)


Em diversos momentos, estes e outros versículos dos evangelhos em que Jesus fala de uma oposição à família parecem-me mal interpretados. Tanto pelos críticos do cristianismo como pelos próprios crentes. Eu mesmo já fiz questionamentos aos ditos atribuídos ao Senhor sobre o polêmico assunto.

Será que Jesus estava pedindo de seus seguidores uma dedicação sectária e que o colocasse acima de todos os afetos?

Teria sido Jesus tão imaturo a ponto de querer impor um amor condicional capaz de gerar uma desajustada cristolatria no meio social?

Por acaso as suas intrigantes palavras devem inspirar ascetismo ou fanatismo?

Não podemos negar que foi com base em passagens bíblicas como esta que representantes do clero católico começaram a promover a defesa de um celibato disciplinar. Muitos padres ainda advogam a ideia de que o próprio Jesus teria encorajado outros homens a segui-lo e estabelecendo como preço o abandono dos compromissos familiares como se tais responsabilidades fossem incompatíveis com o exercício ministerial na Igreja.

Mas afinal de contas, o que a mensagem de Jesus quer mesmo nos dizer?!

Para responder a esta indagação, só posso buscar entendimento através da experimentação do Evangelho nos dias atuais por meio de pessoas que realmente dedicam-se à causa de transmitir as boas novas ao mundo.

Antes de mais nada, compartilho que, na minha visão, o compromisso da causa do Evangelho é bem mais sério do que simplesmente trabalhar para uma organização religiosa. A causa do Reino requer determinação e desprendimento do ministro eclesiástico afim de que ele contribua para a promoção de mudanças profundas na sociedade. E aí o comportamento adotado poderá desagradar a própria família em vários aspectos.

No século XIX, Friedrich Engels (1820-1895) estabeleceu bem a relação existente entre a propriedade e a família em seu livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884). Porém, muitos séculos antes do capitalismo moderno, Jesus teria chegado a considerações críticas não tão distantes do filósofo burguês comunista, percebendo o quanto a sociedade familiar é capaz de dificultar a ação de um membro que se propõe a se tornar um agente de transformação do Reino. Conta o Evangelho de Marcos que, após uma divergência com os fariseus, Maria e os irmãos do Senhor teriam vindo ao seu encontro porque entendiam que ele estivesse “fora de si” (Mc 3.21):

“E, quando os parentes de Jesus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si (…) Nisto chegaram sua mãe e seus irmãos e, tendo ficado do lado de fora, mandaram chamá-lo. Muita gente estava assentada ao redor dele e lhe disseram: Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua procura. Então, ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.” (Marcos 3.21, 31-34; ARA)

Ainda assim, recuso-me a aceitar a ideia de que Jesus encorajasse os seus discípulos a deixarem o relacionamento com seus pais e irmãos, mesmo que ele defendesse a mudança de conceito sobre a família que deveria deixar de ser nuclear para abranger toda a comunidade de Israel.

Ora, sem dúvida que a chegada do reino de Deus requer a tomada de atitudes existenciais, as quais, por sua vez, poderão contrariar os interesses medíocres da família. Ciúmes, preconceitos e apego à reputação de prestígio diante da sociedade são situações que podem conflitar com a vivência do Evangelho.

Baseando-me em minha própria experiência, confesso que tenho sentido um pouco desses conflitos sofridos por Jesus depois que vim morar no Rio de Janeiro ficando mais próximo da família. Até dezembro do ano passado, eu e minha esposa Núbia estávamos vivendo numa cidade onde éramos só nos dois. Mas aqui no prédio onde residimos, estando cerca de duzentos metros de minha mãe e irmãos, não demorei muito para envolver-me com a situação sócio-ambiental dos comunidades carentes no entorno do bairro. Comecei a trazer preocupações quando passei a caminhar por tais localidades, fazendo coisas que o carioca de classe média por motivo de medo, preconceito ou indiferença não costuma fazer. E quando alguém desse social sobe o morro, diz-se logo que foi para “comprar drogas”.

Realmente a maneira “escandalosa” como Jesus agia, pode ter gerado perplexidades em seu meio familiar. Voltando-se para os pobres, prostitutas, publicanos e criticando a hipocrisia dos estimados fariseus da Galileia, não demorou para que a sua própria família resolvesse tomar uma atitude quando, na certa, souberam que até escribas vindo de Jerusalém estavam acusando-o de agir possesso por Belzebu (Mc 3.22). Tanto é que Maria e seus demais filhos vieram para prender o Senhor.

Entretanto, creio que Jesus em momento algum desistiu de seus parentes. Segundo o Evangelho de João, Maria era uma das mulheres que estavam ao pé da cruz junto com o “discípulo amado” que veio a se tornar o “seu filho” (Jo 19.25-27). Entre os que perseveraram em oração nos dez dias após a ascensão e que antecederam ao evento do Pentecostes, sua mãe esteve novamente presente (At 1.14). E, pelo que se conclui a partir de outros escritos do Novo Testamento, Tiago e os demais irmãos do Senhor teriam abraçado a causa do Reino após o testemunho da ressurreição (comparar Jo 7.5; At 12.17; 15.13; 1Co 15.7; Gl 1.19).

Portanto, penso que nunca devemos deixar de lado as nossas famílias, mas também não podemos permitir que interfiram nas escolhas existenciais que fazemos, sendo certo que, mais cedo ou mais tarde, ainda seremos reconhecidos por decidirmos cumprir a vontade do Pai. Por isso, podemos crer que o discipulado de Jesus irá nos proporcionar muitos pais, mães, irmãos e irmãs através de uma vida na comunidade:

“Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.” (Mc 10.29-30; ARA)


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro retratando a crucificação de Jesus feito pelo artista italiano Gentile da Fabriano (1370-1427) que teria vivido no final da Idade Média.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Teologia boa pra cachorro!!




Meu cachorro sumiu. Mas...



Meu cachorro tem livre arbítrio. Não posso forçá-lo a ficar. Ele pode voltar um dia se quiser. # Arminiano

Eu escolhi o cachorro. O cachorro é meu. Irei atrás do cachorro e o trarei de volta a qualquer custo. # Calvinista

O cachorro é totalmente depravado, mas é meu. Vou mantê-lo na casa e deixa-lo fazer o que quiser. Se mudar ou não, não importa. Eu o escolhi e ele sempre será parte da família. # Calvinista

Antes só do que mal acompanhado! # Desigrejado

Resolvi aceitar as falhas de meu cachorro e adaptar minhas crenças e padrões ao seu comportamento. # Neo-Liberal

Não vou chamá-lo, nem ir atrás dele. Se Deus quiser que este cachorro volte, ele voltará, independentemente de meus esforços. # Hiper Calvinista

Eu criei o cachorro. Agora, ele pode viver e se alimentar sozinho. Vou sentar e observá-lo. # Deísmo

Quando comprei este cachorro jamais imaginei que ele me deixaria um dia! # Teísmo aberto

Se o cachorro não voltar, perecerá. # Arminiano

Se o cachorro não voltar, é porque nunca foi meu. # Calvinista

Se o cachorro realmente foi escolhido por mim, ele reconhecerá a minha voz e voltará. # Calvinista

Se o cachorro provou de minha comida e do aconchego de minha casa, e mesmo assim partiu, nunca mais poderá voltar. # Congregação Cristã

Se o cachorro não beber cerveja, o resto é perdoável. # Batista

Impossível. O cachorro tem livre arbítrio para entrar, mas meu cachorro precisa rolar 30 vezes, sentar-se 40 vezes e ficar de pé umas 20 vezes para que eu o aceite em casa novamente. # Católico

Para estar alegre e se sentir confortável, o cachorro precisa estar na sala de estar, rodeado por sofás, almofadas e aperitivos. # Igreja nos Lares

Eu amo o meu cachorro e odeio todos os outros. # Calvinista

O cachorro se sentia sozinho. E preciso aproximar-se do cachorro e desenvolver uma relação com ele. # Igrea Orgânica

 Busquemos o cachorro e aproveitemos para alimentar todos os cachorros da rua. # Missional

Deus quer que todos os cachorros se salvem. Mas “todos” os cachorros na verdade quer dizer “somente alguns” cachorros. # Calvinista

Saudades de quando o cachorro levantava as patinhas, se jogava no chão e se fingia de morto...# Pentecostal

Unja a caminhada de seu cachorro com esta água do Rio Jordão e ele certamente voltará. # Neopentecostal

Hoje é sábado. O cachorro vai ter que esperar. # Adventista

Quando encontrar este cachorro, vou dar na cara dele! # Caio Fábio

Seu cachorro sumiu e você ficou? Ore, irmão! # Tim LaHaye

Ele desafiou o conforto da complacência e penetrou as brumas do desconhecido, rumo às veredas desta vida tão deliciosamente ambígua quanto a rosa, com suas belas pétalas e espinhos pontiagudos. # Ricardo Gondim

Deveríamos decretar uma moratória de cinco anos para depois decidir se o que o cachorro fez é errado ou não. # Brian McLaren

A culpa é do Obama. # Frei Betto

Este cachorro é um trouxa! # Silas Malafaia

O cachorro não existe. # Matrix


(Inspirado nos tweets de @edstetzer que obviamente não se responsabiliza pela brincadeirinha com alguns de nossos queridos líderes espirituais...)
Fonte: tweetsde@edstetzer via Genizah


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Publicado por FRanklim em seu blog Conexão da Graça

domingo, 20 de maio de 2012

MUDANÇAS DOS PARADIGMAS DE SALVAÇÃO




No decorrer de quase 20 séculos de história da igreja cristã, ocorreram várias mudanças de paradigma tanto em termos de pensamento teológico como na prática efetivamente.
Uma delas, na qual desejo concentrar-me neste artigo, são as significativas mudanças da compreensão soteriológica que a igreja apresentou ao longo de sua história.

Antes, porém, é importante salientar que, em alguns casos as diferenças e transformações foram tão profundas e de tal alcance que os historiadores têm dificuldade de reconhecer quaisquer semelhança entre os modelos teológicos e eclesiológicos que operaram por determinado tempo. Isto, em se tratando de uma única igreja, torna-se um ponto relevante em qualquer pesquisa. Como se não bastasse, existe ainda, a realidade de cosmovisões divergentes entre as igrejas Oriental e Ocidental, que traçaram uma linha divisória entre si com tal radicalidade, que é necessário algum esforço para encontrar alguma compatibilidade entre elas. E ainda hoje se acusam mutuamente de anti-ortodoxia. Pois nunca chegaram a uma posição consensual nem da forma nem da prática existentes nos seus paradigmas.

A salvação é efetivamente, um assunto fundamental para qualquer religião. Para os cristãos, a convicção de que Deus operou, de forma decisiva, a salvação para todas as pessoas em e através de Jesus Cristo constitui o âmago de suas vidas. Afinal, o próprio nome Jesus significa “Salvador”.

Com base nesta premissa que a igreja desde seu início, assumiu a prerrogativa de mediar ou servir-se de portadora da salvação a toda humanidade. Mas a conclusão que chegamos é que o conceito de salvação vigente não foi dominante ao longo dos séculos. Logo, surge então alguns impasses de ordem epistemológica. 

Para termos uma ideia, durante quase toda a idade média, os cristãos concebiam a salvação em termos de coletividade. Ou seja, o indivíduo era salvo quando inserido no contexto da comunidade cristã, a chamada eclesiasticização da salvação. Idéia que teve origem em Agostinho na sua obra “A Cidade de Deus”. A salvação que ocorre, em termos de individualidade, é uma concepção relativamente nova, que teve sua gênese na reforma.

Mas para melhor compreendermos esta questão, se faz necessário retrocedermos pelo menos até o período neo-testamentário, onde percebe-se, que, salvação naquele contexto, foi interpretada em termos mais abrangentes. Isto é, não se restringia ao um livramento de juízo e de perdição no além. Na perspectiva de Lucas, por exemplo, como se vê por inferência em seu evangelho, salvação é, antes de tudo, algo que se realiza nesta vida, hoje. Para Lucas, a salvação é salvação no presente.

Enquanto que em Paulo, sua ênfase parece distinta. A salvação era vista como um processo que, tem apenas seu início nesta vida, que acontece com o encontro da pessoa com o Cristo vivo, mas a salvação completa está ainda pendente. Será concluída somente “com” e “na” glorificação completa do crente. Neste aspecto, a salvação se enquadra em categorias apocalípticas e de juízos.

Já no período da patrística grega a salvação deixou de ter essa conotação, para assumir a forma de Paidéia, de uma gradual elevação dos crentes a um status divino (a theosis). Neste caso, entendia-se a salvação como uma progressão pedagógica. Nesta teoria especificamente, enfatiza-se a origem de Cristo. E a encarnação encontrava-se no centro, como instrumento da Paidéia divina.

Entretanto, com o advento do iluminismo, toda essa interpretação de salvação passou a ser pressionada intensamente, resultando numa crescente contestação da soteriologia tradicional. Basicamente tudo teve que ser revisto. A idéia de uma salvação vinda de fora, de Deus, totalmente inacessível ao poder e à capacidade humanas, tornou-se muito problemática.

O que conhecemos hoje como crítica moderna da religião teve aqui, no iluminismo, seu ponto de partida. A religião como expressão da completa dependência e como salvação eterna no além constituía um anacronismo e um remanescente do estágio infantil da humanidade. A salvação agora foi resignificada como libertação da superstição religiosa, preocupação com o bem estar do ser humano e o melhoramento da humanidade.

Note que não houve uma ruptura radical com o pensamento iluminista. Temos seus batedores operando ativamente ainda hoje.

Outro ponto digno de nossa atenção, já que tocamos no assunto, são as diferentes ênfase daquilo que é chamado de “evento salvífico”. Por exemplo:

Enquanto que o Oriente concebia a salvação como uma progressão pedagógica, o Ocidente (católico e protestante) destacava o efeito devastador do pecado, assim como a restauração do indivíduo caído através de uma experiência de crise mediada pela igreja. Neste aspecto, nem a preexistência de Cristo nem sua encarnação, mas sua morte vicária na cruz, (doutrina aprimorada pela teoria de Anselmo sobre a satisfação vicária), encontrava-se agora no centro. A salvação representava a redenção de almas individuais no além, o que aconteceria por ocasião do apocalipse ou da morte individual do crente.

Note que o paradigma da salvação na perspectiva da patrística grega, estava voltado para a origem e o início da vida de Jesus. Para sua preexistência e encarnação. Enquanto o modelo ocidental orientava-se para o fim da vida de Jesus – sua morte na cruz. (expiação)

A igreja ocidental, tanto católica como protestante, preocupa-se com a paixão e a crucificação de Jesus. Em nossa compreensão soteriológica, a essência do evangelho é que Cristo morreu por meus pecados. A base da salvação está nesse ato. Cristo é o novo lugar de expiação, em substituição do templo. A cruz é o cerne da mensagem salvífica.

O problema decorrente deste paradigma é que a morte de Jesus é sutilmente isolada de sua vida.

Nós ocidentais, ou as igrejas protestantes, em geral, temos uma teologia subdesenvolvida da encarnação. Entretanto, foi exatamente em nosso ambiente que surgiu a teologia da libertação, que bem mais explicitamente do que foi feito até agora, entendeu a missão cristã em termos do Cristo encarnado, do Jesus de Nazaré humano que, exausto, trilhou os caminhos poeirentos da Palestina, onde se compadeceu das pessoas que estavam marginalizadas. Do mesmo modo ele se encontra do lado dos que sofrem nas favelas do Brasil, dos marginalizados e oprimidos pelo sistema vigente.

Nesse paradigma, a salvação é holística. Nele, o interesse não está em um Cristo que oferece apenas a salvação eterna, mas em um Cristo que sofre e sua e sangra junto com as vítimas da opressão.

Para finalizar, quero destacar que este texto apresenta apenas uma sinopse acerca do desenvolvimento e das modificações dos paradigmas teológicos, com enfoque, é claro, para as mudanças no tocante a doutrina da salvação.

E a tese que alguns defendem é que estas transformações não chegaram ao fim. E que talvez jamais chegará! Sobretudo quando constatamos uma atualidade repleta de modelos trabalhando concomitantemente, rivalizando entre si com temas aparentemente irrelevantes, mas que demonstra sutis ou totais incompatibilidades entre os mesmos.

Por Donizete.

Bibliografia: Missão transformadora, David Bosch.

sábado, 19 de maio de 2012

Feliciano Amaral - A cada passo


Bem, pessoal,


mais uma rodada completa de postagens. E como já acabou virando regra, a cada final de rodada eu posto um música clássica do cancioneiro evangélico; músicas (hinos) de um tempo onde tudo era mais simples na fé cristã. E aproveito também para colocar alguns pontos em pauta.


Em primeiro lugar, meu amigo EDSON MOURA ou NOREDA SOMU, eu deletei seus últimos comentários ao texto do Gil. Não, não foi censura. Foi apenas um modo que eu achei de preservar tão interessante comentário que merece estar de fato, publicado como postagem. Como o Gil comunicou que por ele os debates poderiam ser encerrados, tomei a liberdade de não mais prolongar os comentários que  com certeza seriam feitos ao seu comentário.



Então, peço-lhe que se possível, guarde seu comentário (eu o guardei!) para  você postá-lo numa outra oportunidade como postagem, ou na sua vez de postar ou mesmo se alguém aceitar abrir espaço na fila para ele. (pode ser inclusive, na minha vez).



Em segundo lugar, quero dizer que os comentários estão em alto nível. Como é legal poder desfrutar da presença de várias (boas) cabeças pensando sobre religião, espiritualidade e a existência, não importando qual seja o dogma de cada um (até para aqueles que o único dogma é não ter dogmas). Somente pessoas inteligentes intelectualmente e emocionalmente são capazes de dialogar com seus contrários e não querer comer o seu fígado...



Em terceiro lugar, quero dar minha opinião sobre uma questão: eu acho que fica um pouco cansativo postar nos comentários textos que já foram postagens. Como geralmente os comentários aqui são muitos, textos longos nos comentários acabam por deixar os debates um pouco mais pesado e cansativo. O melhor a  fazer quando se quer citar um texto, é deixar o link, e então, quer quiser ler, vai lá e lê. Mas é claro que esta é minha opinião  e não é absoluta aqui. Cada um nesta confraria tem o mesmo peso e importância e a opinião da maioria deve prevalecer. 



Bem, é isso.


Quanto à música "das antigas" que postei, é novamente do grande Feliciano Amaral (essa é de novo, para o LEVI!!!! RSSS),  "A cada passo". Sei que os mais jovens não devem conhecê-lo, mas quem tem mais de 30 anos de igreja, com certeza, vai sentir aquele sentimento do qual tanto fala o LEVI... rs



Edu.



quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dei Verbum




DEI VERBUM

CAPÍTULO III

A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA INTERPRETAÇÃO

Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura

11. As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (cfr. Jo. 20,31; 2 Tim. 3,16; 2 Ped. 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja (1). Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades (2), para que, agindo Ele neles e por eles (3), pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria (4).
E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras (5). Por isso, «toda a Escritura é divinamente inspirada e útil para ensinar, para corrigir, para instruir na justiça: para que o homem de Deus seja perfeito, experimentado em todas as obras boas» ( Tim. 3, 7-17 gr.).

Interpretação da Sagrada Escritura

12. Como, porém, Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana (6), o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras.
Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem ser tidos também em conta, entre outras coisas, os «géneros literários». Com efeito, a verdade é proposta e expressa de modos diversos, segundo se trata de géneros histéricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa, além disso, que o intérprete busque o sentido que o hagiógrafo em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretendeu exprimir e de facto exprimiu servindo se os géneros literários então usados (7). Com efeito, para entender rectamente o que autor sagrado quis afirmar, deve atender-se convenientemente, quer aos modos nativos de sentir, dizer ou narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, quer àqueles que costumavam empregar-se frequentemente nas relações entre os homens de então (8).
Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita (9), não menos atenção se deve dar, na investigação do recto sentido dos textos sagrados, ao contexto e à unidade de toda a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da fé. Cabe aos exegetas trabalhar, de harmonia com estas regras, por entender e expor mais profundamente o sentido da Escritura, para que, mercê deste estudo de algum modo preparatório, amadureça o juízo da Igreja. Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus (10).

Condescendência de Deus

13. Portanto, na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a admirável «condescendência» da eterna sabedoria, «para conhecermos a inefável benignidade de Deus e com quanta acomodação Ele falou, tomando providência e cuidado da nossa natureza» (11). As palavras de Deus com efeito, expressas por línguas humanas, tornaram-se ìntimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens tomando a carne da fraqueza humana. 

domingo, 13 de maio de 2012

O poder, a fama e a verdade (se é que há uma verdade)






O poder tem um efeito tão nocivo quanto qualquer outra droga, isto é fato. O poder causa dependência e por si só a pessoa é incapaz de abandonar este terrível vício. Com certeza você, caro leitor, deve conhecer alguém que sofre deste mau terrível que é a dependência: toxicômanos, fumantes, alcoólatras assim como, políticos, ministros, diretores de empresas e porque não dizer PASTORES?! SIM! Assim como os dependentes químicos que não conseguem por si só abandonarem o vício, o individuo que alcança o poder não intenta abandona-lo, inclusive os PASTORES!

                Quero me ater nesta ultima classe de indivíduos, os pastores, estes talvez sejam os mais difíceis de tratar, pois, estando no engano, enganam; se libertando do engano, continuam, enganando e se enganando e por quê? PELA SEDE DE PODER! Não querem abandonar todo o “sucesso profissional” que já alcançaram e covardemente, permanecem no auto-engano e no engano da religião e continuam iludindo a muitos. Até pode-se dizer que é compreensiva tal postura, pois o ser humano é por natureza ambicioso e a ambição é o desejo, a intenção de alcançar um objetivo e em se alcançando, novas ambições nos arrebatam, sendo que em se tratando de poder, quanto mais melhor. A fome por poder se torna insaciável e renegar ao poder é algo extremamente difícil e doloroso.  O homem (indivíduo) que, no exercício da função, alcança o poder no clericato, dificilmente abandonará suas convicções, mesmo que tenha certeza que está no engano ou que, sendo eu mais “light”, descobre não haver uma verdade absoluta ou uma só verdade, dificilmente terá coragem de retroceder e abandonar o poder que o mantém vivo ou pelo menos que o mantém como “chefe” da organização que dirige, seja ela qual for.

                […] “Em algumas personalidades (e pastores), a conquista de poder pode ser como apanhar uma 'pedra', semelhante a uma droga", escreveu Dan Bobinski , um especialista norte-americano em liderança, num artigo em 2006 . "Mas eventualmente a 'pedra' passa e a pessoa precisa de uma nova infusão de poder - ou uma posição mais elevada de poder - para voltar a sentir-se estimulado. Nenhuma pessoa é tão grande que não possa cair".

O poder como vício dos vícios é substância mais natural do que a canábis, tem sido abordado pelos autores mais respeitáveis ao longo dos tempos: "O poder é doce: é uma droga cujo desejo aumenta com o hábito", escreveu o filósofo Bertrand Russel a meio do século XX. Edmund Burke já tinha escrito há 200 anos: "Aqueles que foram intoxicados pelo poder... nunca o poderão abandonar de livre vontade”. […] (Vitor de Matos).

                É por isto que digo sem medo de errar que muitos pastores (tele-evangelistas ou não) jamais voltarão atrás em sua teimosa fé (mesmo que isto lhes pareça ser o mais sensato a fazer), pois a sede e o doce sabor do poder lhes impede. Muitos até querem abandonar, mas precisam de uma intervenção de fora, não de deus, que é outro que tem uma sede infindável de poder, mas talvez de especialistas em dependentes químicos, só neles estes encontrarão ajuda.

Anderson Luiz de Souza

Licença Creative Commons
O poder, a fama e a verdade (se é que há uma verdade) de Anderson L. De souza é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Baseado no trabalho em andersonmineiro70.blogspot.com.br.
Perssões além do escopo dessa licença podem estar disponível emhttp://omundodaanja.blogspot.com/.



quarta-feira, 9 de maio de 2012


ANENCEFALIA

 
             Acalorados debates ocuparam espaço nas mídias durante a semana que passou acerca da votação concluída pelo Supremo Tribunal Federal que autoriza médicos a atender gestantes de bebês sem cérebro no seu desejo de abortar ou, como queiram, interromper a gravidez.  
            A Igreja Católica e outras instituições da sociedade civil manifestaram sua desaprovação ao que consideram mais uma interferência do judiciário em temas afetos ao legislativo. Essa questão é apenas um aspecto da decisão do Supremo, o grande dilema, contudo, o mais relevante, certamente, é o aspecto moral da decisão, assim como aquela que definiu como legal um núcleo familiar formado a partir de duas pessoas do mesmo sexo, o chamado casal homo afetivo.
Sabemos há algum tempo que existe intensa atividade sob interesses obscuros por parte de minorias da sociedade que exercem lobby junto a autoridades dos três poderes na tentativa de aprovar a prática indiscriminada do aborto propagando o direito da mulher sobre o seu corpo. E naturalmente essa última decisão do STF foi recebida pelos “portadores do espírito do Faraó e de Herodes” como uma vitória em sua luta e o prenúncio de breve conquista da legalização do assassinato de indefesos.       
Reitero que o problema está no âmbito dos valores morais de uma cultura, e a nossa foi construída a partir de bases judaico-cristãs a qual atualmente militam para desconstruí-la apagando da memória das gerações em formação os conceitos do cristianismo. Não quero aqui entrar no mérito da aceitabilidade ou não do aborto de anencéfalos, pois acompanhando os debates me veio a memória não os sintomas que se quer anular sob nosso ônus, mas causas e essas nem de longe vem a baila. Estão escondidas da sociedade guardadas a sete chaves.
Poucos tomaram conhecimento do grave desastre ambiental provocado em Paulínia-SP que obrigou dezenas ou centenas de munícipes a abandonar suas propriedades rurais simplesmente pelo fato de que a Shell Química instalou uma fábrica de “organoclorados” herbicidas altamente tóxicos cujos resíduos quase indestrutíveis penetraram no lençol freático e inutilizaram milhares de acres de terra e fontes de água pelos próximos quatro séculos. Além disso, cerca de sessenta trabalhadores dessa indústria morreram de câncer por contaminação no ambiente da fábrica. Ainda hoje depois de anos existe pessoas residindo em hotel porque não tiveram soluções na justiça e nem puderam retornar às suas propriedades.
Não sei quantos de nós estamos lembrados da “síndrome da talidomida” que na década de 50 produziu a chamada “geração talidomida”, bebês que nasceram em todo o mundo com má formação por conta do que seria um simples medicamento contra enjoo. Assim como esse terrível medicamento, hoje, agentes químicos usados como herbicidas, agrotóxicos, conservantes de alimentos, corantes, vêm causando males sem conta a saúde da população, para não citar um sem número de medicamentos, tudo legal, que mais mal produzem do que curam. Por que não se fala de quantas mães e pais estão contaminados por toda essa parafernália química comercializada livremente a qual como a talidomida é causa de deformações congênitas em fetos? Não, não se fala o ente “mercado” não permite, sua dinâmica e lucro são invioláveis.
Conclusão: nossa sociedade vive uma embriaguez que lhe consumiu o cérebro, tornou-a anencéfala para enxergar e resistir a realidade que o “mercado lhe impõe.”


Por Jair Vieira da Rocha.













sexta-feira, 4 de maio de 2012

Apresentação e 1° Artigo - EU SOU UMA PRETERIDA




Meu nome é Rozana, mas sou mesmo conhecida como Anja_Arcanja, nick que me acompanha há mais de cinco anos por conta de uma tatuagem de anja que tenho nas costas. Sou casada com Anderson (conhecido como mineiro) há 19 anos, e tenho com ele dois filhos: Samuel e Thiago, de 11 e 8 anos respectivamente.

Cursei teologia no Seminário Teológico Batista Nacional e, ainda, fiz vários outros cursos, todos na área da teologia, embora, ainda não saiba bem por que os fiz (ironicamente, serviram para que eu tivesse meus olhos e ouvidos abertos), já que os seminários e, até mesmo, as faculdades de teologia, por mais sérios que sejam, são tendenciosos e dogmáticos, estando (mesmo que insistam que não) presos às instituições denominacionais a qual pertencem.

Fiquei muito feliz com o convite do Eduardo para poder contribuir com o blog, e espero poder acrescentar, apresentando textos sobre religião – sexo – homossexualidade, além de, tentar através de textos embasados na Bíblia, e em outras fontes de igual valor, desmistificar os dogmas, que tanto aprisionam o povo, ao invés de liberta-lo. Desejo mostrar que ser “desigrejado” é não apenas questionar, mas ser de fato desigrejado! Pois não vejo como alguém pode ser ou estar fora da igreja pertencendo a uma instituição dogmática “igrejada” (rsrs). O Daniele Faedda Pusceddu, mestre em filosofia, bacharel em direito e teologia se mostrou muito entusiasmado com o blog Logos e Mythos e levará para discussão entre seus alunos de filosofia e teologia na faculdade. Espero que todos nós possamos aprender e crescer individualmente, contribuindo, assim, para nosso bem estar não só individual, no seio familiar, mas também no coletivo, transformando, assim, o meio em que vivemos, que penso ser, de fato, onde devemos agir, e não em questões que saiam das nossas fronteiras, antes de nelas serem trabalhadas, pois a Tdl deve ser praticada em nossa circunvizinhança. Em princípio, penso que os alunos do Dani darão mais ênfase aos textos de seu mestre, mas espero que haja um crescente interesse também nos textos de outros autores, o que espero se mostre refletido nos comentários subsequentes.

Então… hoje digo que sou uma ex… ex-católica (quando criança), ex-batista tradicional, ex-batista renovada, ex-evangélica e ex-religiosa. E hoje sou apenas irreligiosa, mas procuro viver não só no meu lar, mas também para fora dele à essência do evangelho de Cristo, que é a tolerância, amor e respeito ao próximo (confesso que não é fácil, mas vamos tentando caminhar… sempre em frente).

“Hoje vivo minha humanidade intensamente, sem medo do fogo do inferno”.

Feita minha apresentação, vamos ao meu primeiro artigo. (um texto antigo meu, mais que é o mais acessado em meu blog com mais de 3 mil cliques e que aqui penso que terá uma nova leitura, senão com certeza será muito debatido, isto é fato rsrs).

EU SOU UMA PRETERIDA




Converti-me, era recém-casada, aos 22 anos. Na batista (brasileira) ultramegahipertradicional [sic], aprendi que deveríamos querer aceitar a deus, no caso, o famoso (e erroneamente interpretado) “Eis que estou a porta e bato…”. Em conflito com os dogmas impostos, eu e meu esposo migramos para a batista nacional (renovada). Bom, até aí tudo bem, os sermões eram parecidos, mas ao ingressar no seminário da instituição é que fui conhecer de fato sobre o tema PREDESTINAÇÃO. Para minha surpresa, mais da metade dos professores (a maioria pastores) eram calvinistas, o que não se refletia em seus respectivos sermões no púlpito (coisa de manipulador mesmo, ou de medroso, sei lá). Então, pude no seminário escolher (???) a qual doutrina seguir. Tornei-me calvinista, senti-me eleita! SOU PREDESTINADA! Mas afinal, todos nós somos! Uns eleitos e outros preteridos. Mas ainda não satisfeita, busquei entender mais a fundo e mais e mais… E hoje cheguei à conclusão de que, apesar da doutrina calvinista ter mais base (bíblica), Calvino foi um equivocado e Armínio um perturbado!

Bom, concluo dizendo que sim! EU SOU UMA PRETERIDA, não sou eleita dentro dos moldes da instituição! Não creio na bíblia como sendo a palavra de deus (não consigo conceber como uma palavra viva pode ser retida em papel e tinta), não intento alcançar ser salva, antes, eu quero viver. E viver bem! Comer, beber, dançar, dar e receber prazer… Amar… Viver!

Porque o deus que a igreja prega está longe de poder salvar alguém de algo, se é que há “algo” para que possamos ser salvos deste “algo” (perdoa a redundância). A igreja com seus dogmas é uma instituição falida, com um deus falido, fraco e manipulável. O deus da igreja está morto! Sendo assim, de nada ele pode me salvar, e mesmo se este tal deus tivesse o poder de me salvar, eu não ia querer! Mesmo que este deus insistisse falando que já tinha determinado “antes da fundação do mundo” eu não aceitaria, não aceitaria jamais ser salva pelo deus da igreja!

Anja_Arcanja®