domingo, 29 de abril de 2012

PRINCÍPIO PATERNO versus PRINCÍPIO MATERNO




Por  Levi B. Santos


De uns tempos para cá tenho sempre recorrido à Psicanálise para tentar compreender as raízes dos afetos de que somos portadores. Não há como negar que a figura do pai ou tutor e da mãe foram as primeiras e grandes fontes formadoras do mundo dos nossos sentimentos e, consequentemente, da nossa maneira de ser.

Não há como deixar de admitir a estreita conexão existente entre as figuras paterna/materna e os princípios morais de uma cultura.

A voz da consciência que nos manda cumprir o nosso dever é uma ressonância da autoridade paterna. Mas, não podemos deixar de perceber que a voz da consciência que nos manda perdoar e amar, é uma ressonância do instinto materno.

Erich Fromm, contemporâneo de Freud, soube como ninguém, transmitir de forma calorosamente humana e inteligível as suas profundas análises a respeito do Homem em face dos seus afetos paradoxais; diz tudo numa linguagem bem popular, senão vejamos:

“O pai que temos dentro de nós, nos diz: ‘Deves fazer isto’, e não deves fazer aquilo’. Se erramos nos repreende, e se acertamos nos elogia. Mas enquanto o pai que temos em nós nos fala dessa maneira, a mãe que temos em nós nos fala uma linguagem diferente. É como se ela estivesse dizendo: ‘teu pai está muito certo ao te repreender, mas não o leves muito a sério; faças o que fizeres és o meu filho, eu te amo e te perdôo; nada do que tenhas feito pode interferir no teu direito à vida e à felicidade.” (Psicanálise da Sociedade Contemporânea – Erich Fromm – página 58)

O homem na sua infância histórica está arraigado a mãe, arraigado a Natureza, a “grande mãe Terra”. É surpreendente que o homem, por mais adulto que seja, anela não romper os seus laços com a natureza. Deixou a órbita protetora da mãe para o desamparo do existir. Porém, nesse adulto maduro não desaparece por completo a nostalgia de uma situação que ele experimentou primariamente e não se lembra mais. Na fantasia ou nos sonhos, a morte é a volta ao seio materno, à Terra–Deusa-Mãe. Daí dizer-se que a relação “Mãe- Filho” é paradoxal e trágica: a fim de crescer a criança tem de tornar-se cada vez mais independente dela. Ao se tornar adulto o amor à mãe é interditado pela figura paterna, naquilo que se convencionou como TABU do INCESTO. A ameaça para quem violasse esse interdito era a CASTRAÇÃO (vide Complexo de Édipo).

J. J. Bachofen (1815 ― 1887), antropólogo suíço e maior teórico sobre o matriarcado pré-histórico, dissecou com clareza tanto o aspecto negativo como o positivo da fixação humana à figura da mãe. O aspecto positivo da Mãe para ele é no sentido de afirmação da vida, liberdade, igualdade que impregna a estrutura matriarcal. Em outras palavras, a mãe ama seus filhos não porque um seja melhor do que o outro, mas porque são seus filhos e, nessa qualidade, todos são iguais e têm o mesmo direito ao amor e ao carinho. O aspecto negativo, segundo Bachofen, é este, bastante cruel: “Por está atado a Natureza, ao sangue e ao solo, o homem é impedido de desenvolver a sua individualidade e a sua razão”.

O afeto materno, ou a estrutura matriarcal introjetada no inconsciente está presente em muitas narrativas religiosas: A Vênus de Willendorf, a Deusa-Mãe de Monhego-Daro, Ísis, Istar, Réia, Cibele, Hator, a Deusa Serpente de Nipur, a Deusa indiana Cali — esta, criadora e destruidora da vida.

O homem quando julga seu semelhante, o faz pela consciência paterna. Quando o ama e o perdoa, o faz pela consciência materna. Será que o homem está condenado a carregar, enquanto viver, essa cruz que simboliza a nossa ambivalência, essas duas traves de sentidos contrários?

O arquétipo feminino está muito vivo no catolicismo. Não custa lembrar aqui, que o Vaticano foi construído sobre o Monte Vaticanus ― antigo santuário consagrado à veneração da “Deusa-Mãe”.

Os gnósticos acreditam que o Espírito Santo é o Divino Feminino, e que na Trindade “Pai-Filho-Espírito Santo”, o “E. Santo” deveria ser substituído pela imagem da Mãe, para o dogma ser preciso e perfeito. Essa síntese era a que Freud reivindicava como solução para o velho antagonismo “masculino-feminino” da psique humana.

Erich Fromm, em a “Análise do Homem”, diz algo interessante para que se possa entender o peso do princípio paterno e materno no conceito “Deus” da tradição Judaico-cristã:

“O Deus que manda o dilúvio porque todos são fracos, exceto Noé, representa a consciência paterna. O Deus que fala a Jonas com compaixão por aquela grande cidade em que vivem mais de seis vintenas de milhares de pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, fala com a voz da Mãe que a tudo perdoa sempre.”

Não foi à toa, que os evangelistas para retratar um Jesus querendo de modo profundamente sentimental apaziguar a todos, recorreram à imagem de uma galinha juntando seus pintinhos debaixo das asas.

O Protestantismo, especificamente o Calvinismo, ao invés de tentar equilibrar esses dois princípios, incentivou a aversão do lado feminino, ao polarizar o espírito patriarcal em detrimento do outro. Resultado: a religião ocidental, em prol da imagem de um pai severo e cruel —, ressuscitou o feudalismo psíquico que, ainda hoje, de forma aparentemente sutil, continua a fazer muitas vítimas.

E por falar em princípio paterno e materno em religião, aqui ficam duas perguntas:

Por que a maioria das seitas protestantes considera a Igreja Católica como a grande meretriz de que fala o Apocalipse de João?

Será que essa aversão calviniana se deve a aderência do Catolicismo ao pólo feminino, na medida em que coloca Maria como símbolo daquela que acolhe e protege a criança (o fiel) em seu seio ― a intercessora?

Não sei se essa síntese traria equilíbrio a “gregos” e “troianos”: A de admitir que na figura mítica de Jesus, estariam fundidos o “Deus-Pai” e a “Deusa-Mãe”.



Site da imagem: lucienefelixsobreoamor.blogspot.com  [ Zeus e a  Deusa Hera]

quarta-feira, 25 de abril de 2012

SHADAI E JAVÉ






Por Eduardo Medeiros


Na Bíblia hebraica, Deus tem vários nomes. Os cabalistas dizem que são 72 os nomes de Deus. Mas quero destacar neste texto apenas dois deles: Shadái e Javé. Javé é o Tetragrama sagrado composto pelas letras hebraicas IÔD-HÊI-VAV-HÊL. É o principal nome de Deus na Bíblia. Os antigos hebreus tinham tanta referência por este nome que não o pronunciavam e nem ao menos o escreviam com outras palavras. Este é uma das razões do nome exato ter se perdido nas areias do tempo. Os escribas tinham que lavar as mãos ao escrevê-lo. O Nome aparece mais de 6 mil vezes na Bíblia. Os escribas engendraram um modo de não ter que lavar as mãos seis mil vezes ao escrever os textos da Bíblia: Em vez de lavar as mãos cada vez, eles deixavam um espaço em branco, assinalando simplesmente quatro pingos (....). Depois de escrever algumas horas, lavavam as mãos e preenchiam os espaços vazios. Às vezes, por inadvertência, deixavam para trás o espaço sem preenchê-lo. É por isso que existem cópias antigas com frases onde o nome de Deus está marcado com apenas quatro pontos.

Por que o nome JAVÉ provocava tanto respeito? Foi no episódio da Sarça Ardente, que Deus revelou a Moisés esse nome. O lugar da epifania tornou-se sagrado, a ordem foi que Moisés “tirasse as sandálias dos pés”. Na concepção das culturas antigas, Deus está presente onde seu nome é pronunciado ou escrito. Foi com o  nome JAVÉ que começou a épica história dos hebreus: a libertação do Egito. São vários os símbolos presentes nessas narrativas. Por exemplo, a SARÇA (Senêh) que é um espinheiro que cresce no deserto. A etimologia da palavra é bem interessante. “SAN-SHAN-TSAN” é um som que indica todo objeto PONTUDO, AGUDO, CORTANTE e dá em hebreu a diversas ideias como “ser espinhoso”, “espinheiro”, “sarça”, “que corta a carne”, “cheio de pontas”, etc

Deus aparece num ESPINHEIRO EM CHAMAS no DESERTO. ESPINHOS – CHAMA – DESERTO. É nesse cenário que Deus vem revelar seu Nome. Em Deuteronômio 33,16 quando Moisés abençoa as doze tribos, dá a Deus um dos nomes mais curiosos da Bíblia: “O HABITANTE DO ESPINHEIRO”. No deserto, Moisés levantou a Tenda, a casa de Deus no meio do povo no deserto, mas o seu primeiro templo foi um ESPINHEIRO EM CHAMAS NO DESERTO; isso é muito simbólico: Deus não apenas mora com seu povo, mas participa do seu sofrimento – um templo de espinhos! A sarça cresce na região do Sinai e do MAR MORTO, longe de toda civilização. Longe das cidades, dos monumentos; ali só há solidão, silêncio, aridez, esterilidade do solo, calor sufocante. Os antigos e poucos moradores desse deserto, beduínos, eram chamados em egípcio “HIRU-SHAITU” (homens da areia, habitantes do deserto).

Não é sugestivo que o nada e o caos, a pobreza e a esterilidade serem os lugares prediletos da teofania? Na narrativa do Gênesis era o NADA no símbolo das ÁGUAS PRIMORDIAIS, agora é o DESERTO, PEDRAS E ESPINHOS. Na verdade, a SARÇA ARDENTE é uma parábola carregada de sinais significativos. Deus vem se revelar num templo de espinhos, numa árvore seca, pegando fogo, no meio do deserto, na região do Mar Morto, para apenas UM OUVINTE, TÍMIDO, MEDROSO, DE “LÍNGUA PESADA”.

Moisés perguntou para a epifania “Qual seu nome”? Ter um nome significava para os povos antigos “existir”. No relato mesopotâmico da criação diz assim: “Quando os céus lá em cima ainda não tinham sido formados, e a terra lá em baixo ainda não tinha nome...os deuses começaram a existir; um nome foi dado para eles”. Os egípcios procuravam até mesmo se identificar com os deuses, carregando o seu nome. Queriam viver a vida dos deuses e por isso apoderavam-se dos seus nomes. Os sacerdotes egípcios davam nome às munias para que os mortos voltassem à vida no mundo do além.

Por isso, Moisés quer saber o nome desse Deus que diz conhecer o seu povo e que promete libertá-lo. A resposta é enigmática e pouco esclarecedora: “EU SOU AQUELE QUE SOU”. O escritor bíblico depois de escolher o cenário do deserto e da sarça ardente não poderia colocar qualquer nome na boca de Deus, o templo mais original do mundo, UM ESPINHEIRO EM CHAMAS exige um oráculo à altura! Podemos traduzir o nome em hebraico EHIÊH ASHÉR EHIÊH como “Meu nome é este: EU SOU, EU ERA, EU FUI, EU SEREI. SOU O SER ABSOLUTO EM TODOS OS TEMPOS, NUM SÓ TEMPO”.

O verbo hebraico no Imperfeito pode ser usado para expressar o PRESENTE, O PASSADO E O FUTURO(“Eu sou o Deus de Abraão, Isac e de Jacó”). Salienta uma ação contínua, NÃO TERMINADA, que se REPETE SEMPRE DE NOVO. Pode-se dizer, a partir da gramática hebraica, que Deus é um SER QUE SE REPETE E SE RENOVA CONTINUAMENTE.

O verbo SER-ESTAR é fundamental na estrutura mental da inteligência, em todas as línguas. Não se pode afirmar ou negar nada, sem supor esta forma verbal: É-NÃO É. Tudo o que dizemos e pensamos depende do “To be or not to be” – “ser ou não ser”. O verbo SER é como Deus. Sem ele não há ideias, como sem Deus não há ser nem ação.

O termo “HAIÁH” é a origem do nome que Deus revelou na Sarça Ardente e significa em hebreu: SER – VIDA – SOPRO – HÁLITO – RESPIRAÇÃO. É curioso que todas as crianças do mundo, até o quinto mês têm predileção particular por este som “HÁ-AH-EH”; ela ainda não fala, mas é capaz de “dizer” “AH-EH”. Este som é a marca por excelência das línguas semitas. É um som gutural que também é uma ONOMATOPEIA e um SÍMBOLO. É um SOM-SÍMBOLO. “HÁ-AH-HAIÁH” é a onomatopeia para SOPRO, HÁLITO, RESPIRAÇÃO; é um dos sons mais ricos da língua hebraica. Ele expressa centenas de ideias, desde um simples GEMIDO DE DOR(HAH) até as manifestações de AMOR, DESEJO, APETITE, PAIXÃO (IAHÁB-AHÁB). Os conceitos que exprimem sentimentos da alma, paixões profundas que abalam e comovem todo interior da pessoa, que emerge das ENTRNHAS, fazendo até mudar o ritmo da RESPIRAÇÃO, carregam em hebraico este som-símbolo-onomatopaico.

O nome de Deus, então, está em companhia de termos como respiração, fôlego, desejo, paixão, furor, amor, amigo, cobiça, surpresa, horror, ameaça, animal, vida e até “Eva”(HAVÁH). É bom salientar que HAVÁH acompanha o nome divino. O “HAIAH-HAVÁH” deu origem a JAVÉ E EVA. A primeira MÃE do mundo foi divinizado pela Bíblia, ou seja, o nome da primeira mulher é o próprio nome de Deus (SER - VIDA- CAUSA DA VIDA). Na Capela Sistina, curiosamente, Michel’Angelo retratou Eva de modo extraordinário: ABRAÇADA COM DEUS. Pode haver dignidade maior do que esta, da mulher como símbolo da vida? 
Também os antigos babilônios demonstraram a mesma concepção elevada da mulher e da mãe, escrevendo a palavra “MÃE” (UMMUM) como símbolo da  ESTRELA, sinal reservado para os nomes dos deuses. O outro nome de Deus que eu quero destacar, SHADAI, tem muito a ver com essa concepção feminina, mas vou deixar para a próxima rodada.

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bibliografia:
DE SOUZA,  Rômulo Cândido. Palavra, Parábola. Uma aventura no mundo da linguagem. Ed Santuário, SP: 1990

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Tédio espiritual

“A minha alma tem tédio à minha vida” (Jó 10.1a)

Em muitos dos seus discursos, Jesus clamou contra a hipocrisia, a qual seria a conduta de alguém representar ou fingir uma aparência diante da sociedade. Uma pura encenação tal como os personagens numa peça de teatro.

Estou pensando sobre o que pode levar uma pessoa a representar no meio onde ela vive. Por que, por exemplo, num ambiente religioso, encontramos gente encobrindo seus verdadeiros sentimentos e tentando se adequar ao padrão de comportamento de seu grupo?

Tanto nas igrejas, instituições políticas, ONGs e até mesmo nas descompromissadas redes sociais da internet, a vida de cada um de nós corre sempre o sério risco de se tornar um desgostoso fingimento. Uma farsa! Escravizamo-nos a uma obrigação moral de correspondermo-nos aos outros e, com isto, acabamos fatigados, sobrecarregados, oprimidos e entediados.

Na vida espiritual que buscamos desenvolver em nossa intimidade com Deus, algo semelhante pode ocorrer no relacionamento com Aquele que conhece todas as coisas e sonda os nossos corações. Isto ocorre quando tornamos nossas orações, leituras bíblicas, jejuns e outros momentos devocionais em massacrantes rotinas religiosas. Ao invés de expressarmos os sentimentos e desejos que brotam lá do fundo, optamos por pronunciar palavras mecânicas. Um momento de agradecimento pelo almoço, por exemplo, acaba virando um ato vazio.

O que fazer nestas horas tão difíceis e críticas?

Insistiremos com a rotina?

Abandonaremos tudo?

Procuraremos a ajuda de algum irmão com maturidade espiritual?

Tenho pra mim que abandonar tudo é loucura pois as práticas espirituais estão aí para preencherem nosso tempo, sendo métodos milenares utilizados pelos homens na busca de Deus. E, ao invés de chutarmos o balde nos momentos de estressamento, sugiro tentar mudar o tom da oração, descansando sempre na graça. Ficarmos primeiramente quietinhos e deixarmos que os sentimentos venham á toda para em seguida os expressarmos com sinceridade, parece-me mais apropriado.

Por que não oramos assim?

“Senhor, já estou entediado! Sinto-me preso, sem ânimos, triste preocupado, tentado, sem ação, desorientado, confuso, temeroso e caído. Vem socorrer-me com sua graça (...)”

Aí, inspirando-me na ambiguidade dos salmistas, sugiro que, quando desabafarmos tudo, venhamos a exaltar a Deus:

“(...) Pela minha fé, eu te louvo e vou me levantar para anunciar as suas maravilhas. Em nome de Jesus. Amém!”

Igualmente, nas nossas relações pessoais com o próximo, podemos agir com a devida transparência. Sem mais sustentarmos uma engessada imagem pronta e acabada, sugiro sermos quem realmente somos – seres em construção.


OBS: A ilustração acima trata-se do quadro A princesa que nunca sorriu do artista russo Viktor Vasnetsov (1848-1926), o qual era especializado nos temas sobre mitologia e históricos.

Bem-Vindos!





Enquanto o Rodrigo escreve seu novo texto, quero aproveitar o intervalo para dar as boas vindas a dois novos confraternos: Anja e seu esposo Anderson. Ficamos felizes em poder contar com mais dois colaboradores que irão enriquecer este espaço com bons debates, conteúdo e conhecimento.


Meu desejo é que este blog se torne um grande arquivo com temas bíblicos relevantes à nível dos melhores seminários. É fato que o pensamento teológico hoje é ralo na igreja brasileira. Ninguém(ou quase ninguém) tem construído conhecimento teológico relevante visto que todo o tempo é gasto com correntes pela tal prosperidade.


O conhecimento da história, da sociologia, da simbologia e da teologia bíblica são pífios. Mesmo nos seminários quase não se toca a superfície dos tesouros que se escondem nessa coleção de livros milenares; cada seminário apenas reforça o que eles já têm como paradigma e muito se perde nesse exclusivismo burro.


Bem, mas eu não quero me alongar, só quero mesmo dar as boas vindas. Anja e Anderson, sintam-se abraçados por todos.



sábado, 14 de abril de 2012

Quando a ética se torna patética no Reino



Por isso, o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos; E, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos; E, não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher e seus filhos, fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse. Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. (Mateus cap. 18 vs. 23 ao 26)

O ser religioso tem intrínseco na sua alma o sentimento relacional de “compensação”, seja ele ego-cêntrico ou extra-cêntrico.

No primeiro caso tudo gira em torno do indivíduo, por isso a necessidade de ser compensado de alguma maneira como forma de gratificação.

No segundo caso, porém, a compensação visa alcançar e beneficiar o outro, o que em última análise acaba sendo também uma forma de auto-compensação e bônus creditado na conta das boas ações.

O indivíduo da parábola decide agir com ética na relação credor/devedor porque ele não queria ficar refém de um “sentimento de dívida”.

Quando ele diz e tudo te pagarei”, estava deixando absolutamente claro que não aceitava a idéia de receber algo que não tivesse um preço a ser pago, fazia questão de ressarcir “compensar” o seu senhor, para que sua falsa liberdade e segurança interior fosse preservada.

O problema porém, é que essa era uma tarefa impossível dele cumprir mesmo que trabalhasse durante toda a vida, devido ao exorbitante valor consignado que agora estava sendo perdoado.

A ele cabia tão somente aceitar o fato de que a dívida já não existia mais pela benevolência gratuita do seu senhor que não esperava nada em troca.

Mas ele insiste numa ética que agora se torna patética diante da impossibilidade compensatória.

O mesmo dispositivo psicológico nós usamos, quando queremos compensar Deus de alguma forma com bom comportamento ou ativismo religioso, achando com isso que iremos persuadi-LO a ser favorável todas as vezes que esse sentimento de dívida seqüestrar nossas emoções.

Seria tão libertador se aceitássemos de vez a verdade de que “Graça” não se merece, simplesmente se recebe sem nenhuma possibilidade de câmbio/troca/barganha, embora ELE entenda nossa tentativa falida em querer compensá-lo com atos externos. 

Essa é uma decisão unilateral que não nos dá o direito (mas ELE é complacente) de compensação, pois justamente aí reside o fato de que “DEUS É AMOR”.

A incompatibilidade e incoerência interior daquele servo fica nitidamente autenticada, quando nos versículos posteriores do texto ele não usa da mesma benevolência recebida para com seu conservo, mostrando com isso que não havia compreendido a dimensão exata do que recebera.

Ademais, Graças a Graça que é de Graça, nós só somos o que somos porque Deus É Quem É!!!

sábado, 7 de abril de 2012

O VALOR DE UM MARTÍRIO





O martírio cristão é um tema que tem despertado minha curiosidade nesses últimos dias. Primeiramente em razão da veiculação da notícia da condenação do pastor Yousef Nadarkhani em terras iranianas. Segundo algumas agências de notícias, o tribunal da província de Gilan deu ao Pastor Nadarkhani a oportunidade de se retratar e renunciar à sua religião cristã, já que ele vem de uma família de ascendência islâmica, porém ele se recusou. O que resultou em sua condenação e sentença a morte por enforcamento.

Depois pelo contato com o inspirador e desafiador livro Bonhoeffer, pastor, mártir, profeta, espião. Lançado recentemente pela Editora Mundo Cristão. O livro é uma biografia de Dietrich Bonhoeffer, um dos principais teólogos alemães que juntamente com Barth se destacou como uma das figuras principais da resistência contra o regime nazista. Mas que teve a sua luta interrompida a poucas semanas do fim do Terceiro Reich, sendo enforcado por ordem direta de Adolf Hitler.

Em termos gerais um mártir é uma pessoa que morre por sua fé religiosa. Ainda que no decorrer da história, o termo tenha ganhado outros conceitos, como por exemplo; morrer patrioticamente pela liberdade e independência de um povo, ou por um ideal político ou social. Entretanto, do ponto de vista cristão e dentro do contexto no qual se desenvolveu a história da igreja, o mártir é aquele que preferiu morrer, ante a opção de renunciar a sua fé em cristo. Ou seja, decidiu entregar sua vida para que a essência da verdade professada por ele fosse preservada.

Escritos dos pais da igreja primitiva, revelam que o martírio pode ser considerado o testemunho final, a completa declaração pessoal da fé em Cristo, a maior proclamação da palavra de Deus. A primitiva comunidade cristã viam nos irmãos que perdiam a vida com o martírio, um estímulo à perseverança e novos intercessores junto com Cristo. Os mártires eram o orgulho da fé cristã, sendo também um fator determinante para o crescimento do movimento cristão nos primeiros séculos. Tanto é verdade que Tertuliano, cunhou nesta época sua célebre frase “O sangue dos mártires é a semente da Igreja”

Ainda hoje, os cristãos consideram o martírio como sendo a mais alta identificação com Cristo. Realizando inclusive a bem aventurança proclamada por Jesus: “Bem aventurado sois vós quando vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por causa de mim”, afirmando entre outras coisas que a falta de mártires em alguns locais deve-se a perda de identidade com Jesus. E que a partir do momento em que igreja não é contestada, questionada ou perseguida, ela deve seriamente se perguntar se está sendo fiel à sua missão.   

Não pretendo neste artigo enumerar os mártires, que teve com Estevão à inauguração de sua era, nem tão pouco entrar no mérito da veracidade dos escritos que a tradição cristã dispõe sobre o assunto. Mas como contra ponto a esta convicção, que para os cristãos tem caráter irrefutável, coloco a respeitável opinião de Nietzsche. Sendo inclusive, a partir exatamente do conceito nietzscheano que proponho a base para os amigos confrades exporem também suas opiniões.

Em sua obra O Anticristo, Nietzsche disse o seguinte: “que mártires provem algo pela verdade de uma causa, é tão pouco verdadeiro, que eu negaria que jamais um mártir teve em geral algo que ver com a verdade. No tom com que o mártir lança à cara do mundo sua certeza de verdade, já se exprime um grau tão baixo de honestidade intelectual, um tal embotamento para a questão da verdade, que nunca é preciso refutar um mártir.”
Em outro texto o pensador alemão afirma que: “a morte de mártires, dito de passagem, foram uma grande infelicidade na história: seduziram a conclusão de todos os idiotas, mulher e povo inclusive, de que uma causa pela qual alguém vai a morte tem de haver algo  (...) Altera-se algo no valor de uma causa, se alguém deixa por ela sua vida?” Indiretamente Nietzsche considera uma estupidez valorizar uma causa em detrimento da vida, e que a morte dos mártires nada faz além de seduzir e prejudicar a verdade. 

Ainda neste mesmo texto Nietzsche cita as palavras de Zaratustra, que são ainda mais categóricas em relação a este assunto: “Signos de sangue escreveram eles sobre o caminho que seguiam, e seu disparate ensinava que com sangue se prova a verdade. Mas o sangue é a pior testemunha da verdade; sangue envenena ainda  mais o puro ensinamento, em delírio e ódio dos corações. E se alguém passou através do fogo por seu ensinamento – o que prova isso! Mais vale, em verdade, que de seu próprio incêndio saia sua própria doutrina.”

Percebemos com isso que não existem verdades, práticas ou certezas diante das quais haja total unanimidade e unidade de pensamento. Devemos reconhecer este fato com humildade. E em relação ao assunto em pauta, o cristão se depara com uma dialética que via de regra lhe passa despercebida, mas que exige dele uma solução: a de que o Deus, autor da vida, que leva o homem naturalmente a prezá-la como seu bem maior, exige dele que a renuncie em favor de si.  

Para concluir, é bom lembrarmos que a tradição cristã faz com razão, uma nítida diferenciação entre o suicídio e o martírio. Condenando veementemente o primeiro e em alguns casos até aconselhando o segundo. É lógico que não devemos aproximar ou comparar o suicídio com o martírio. Mas não podemos negar que há entre os dois casos, pelo menos um ponto de contato: Ambos evidenciam um certo desdem pela vida. 

Por Donizete.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Jessé - Rude Cruz



Caros amigos de confraria.


Parece que o texto do Levi já foi exaustivamente comentado(mas não com certeza, esgotado); como ninguém mais comentou nada durante quase 48 horas e ainda não temos uma nova postagem, publico um clássico da música sacra cristã, Rude Cruz, na voz do inesquecível cantor Jessé que gravara um disco só com músicas cristãs em homenagem ao seu pai antes de falecer tragicamente em um acidente de trânsito.  (Veja a reportagem aqui).


Bem, deixo para o nosso psicanalista-teólogo Levi, tecer uma análise desse verso tão contundente que diz:



"Mas eu amo essa cruz..."



É claro que a visão mais fideísta não pode deixar de ser contemplada. Deixa-a com a nossa poeta-teóloga, Guiomar...rss



Da minha parte, revivo as saudades que esse hino me traz e me deleito outra vez com a voz maravilhosa de Jessé.



Feliz páscoa.